Opinião

"Eu sou bom de cama, sei fazer café e ninguém reclama do meu cafuné, mas…"

"Eu sou bom de cama, sei fazer café e ninguém reclama do meu cafuné, mas…"

Uma canção que já muito cantarolei e adoro. Fazia parte do show da Orquestra Imperial com quem, em tempos, pisei o palco. Apesar de gostar muito daquela música do Rubinho Jacobina, termino o verso acrescentado uma (apenas uma!) letrinha.

Recentemente achei uma deliciosa coincidência, num livro de António Damásio deste ano, e num de Coimbra de Matos, antigo, a mesma frase como subtítulo: "No princípio não era o verbo".

Sem dúvida, ficará à interpretação de cada um, assim como a canção, mas estou segura de que aprendemos que a acção é que vem antes de todo o discurso. Ou seja, falar é bonito, mas agir de acordo com o que somos convictos é um enorme e importante desafio.

Depois, sem dúvida também, o verbo, i.e, tudo aquilo que dizemos, veiculará aquilo de que estamos convictos. Mas aí, a agravante de passar levianamente de geração em geração, por via da nossa tendência para relativizar e amenizar a importância daquilo que, de facto, estamos a dizer, permite-nos ignorar o que preconizamos em linguagem. Pode soar leve e inofensiva, às vezes até é só uma piada - que alívio seria, ser tudo uma piada -, mas a linguagem é uma coisa tramada.

Mudar uma realidade é insistir no seu oposto e se "no princípio não era o verbo", eu creio que "no verbo é o princípio". Por isso, ali, naquele verso - para os mais atentos, que vão procurar a letra desta canção -, eu faria uma ligeira alteração, acrescentando um "d" ao artigo "o".

Isto porque adoro uma boa canção, a sátira e a ironia e até a liberdade de vernáculo cantado. E porque a Arte é a coisa mais séria do Mundo.

*Artista

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(A autora escreve segundo a antiga ortografia)

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