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Fazer face ao aumento do valor da energia em habitações mal isoladas

Fazer face ao aumento do valor da energia em habitações mal isoladas

Os aumentos dos preços do gás natural e da eletricidade para os clientes domésticos, no mercado regulado e no liberalizado, entram hoje em vigor, o que, em alguns casos, vai pesar quase mais 40 euros na fatura mensal dos portugueses. A verdade é que se os edifícios fossem bem construídos, não teríamos de enfrentar a despesa acrescida que aí vem com os custos de energia, para as climatizar.

O Portal da Construção Sustentável tem realizado inquéritos aos portugueses sobre o conforto térmico das suas casas. Em 2021, num inquérito realizado a cerca de mil inquiridos, verificou-se que 88% desse universo, não se sentia confortável dentro de casa devido ao frio ou ao calor. Ou seja, podemos concluir que apenas 1 em cada 10 portugueses vive numa casa em que a temperatura é satisfatória. Já em 2017, num outro inquérito realizado com o mesmo universo populacional, 74% consideravam a sua casa fria no inverno. Destes, 32,5% também a considerava simultaneamente quente no verão. Dos que consideram a sua casa desconfortável, foram quase 70% os que consideraram haver um aumento significativo de energia, para manter o conforto térmico.

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Sabemos que o que mais influencia o conforto térmico de uma habitação é a sua construção. Não importa que os materiais até sejam de qualidade, importa que o edifício tenha em consideração o clima onde se insere, para que possa tirar partido das soluções construtivas utilizadas. Mas em Portugal, não é assim. Muitas vezes os materiais não são os mais adequados e as soluções construtivas não têm em conta o clima. Os portugueses queixam-se de humidades, frio no inverno e um calor impossível de controlar no verão.

Financiamentos e subsídios para combater a pobreza energética

Em dados divulgados em janeiro de 2020 pelo Eurostat, Portugal consta como o quinto país da União Europeia onde as pessoas têm menos condições económicas para manter as casas devidamente aquecidas, sendo que cerca de 19% dos portugueses estão em situação de pobreza energética.

O Governo apercebendo-se desta realidade, criou fundos públicos destinados aos programas de apoio à eficiência energética dos edifícios, como, por exemplo, o chamado "Vale Eficiência". No entanto, estes estão a apresentar uma fraca adesão. Por um lado, e entre outras questões, porque os cerca de 1300€ por vale, são atribuídos para que se instalem janelas, portas, isolamento e equipamento. Desde logo é colocada de parte a questão de colocar isolamento, isto porque se queremos mesmo recuperar um edifício isolando-o, 1300€ não chegam. Por outro lado, não faz sentido comprar equipamentos mais eficientes, quando existem problemas de construção que influenciam as trocas térmicas. Nestas candidaturas, há ainda várias questões que se colocam:

- Uma família em situação de pobreza energética, não terá com certeza, disponibilidade financeira para pagar o excedente deste vale;

- As candidaturas são realizadas exclusivamente online. Será mesmo possível, ou comum, que uma família que viva em situação de pobreza energética tenha acesso a um computador, esquemas digitais e internet?

- Financiar equipamentos é uma falácia. Por muito eficientes que sejam, não resolvem a questão da construção.

Deveria ser obrigatório recorrer a consultores especializados na área da construção sustentável e estes deveriam ser suportados pelo Governo, para que possam analisar as necessidades energéticas e construir a candidatura adequadamente. Assim poderiam: recomendar o isolamento onde ele é realmente necessário, propor soluções construtivas adequadas ao clima, e por aí fora. Se assim não for, continuaremos a financiar um nível de sociedade que não será, por certo, o mais necessitado. Continuaremos, por exemplo, a substituir janelas sem necessidade...

Desde 2010 a pensar na sustentabilidade do ambiente construído

No Plano REPowerEU que a Comissão Europeia está pronta a desenvolver, é bem clara a intenção de implementar ações para mitigar o impacto dos preços elevados de energia para as famílias, os agricultores, as empresas e a indústria. Este plano tem como objetivo acelerar a transição para as energias renováveis e melhorar a eficiência energética, por forma a eliminar gradualmente as importações de gás russo e a dependência dos combustíveis fósseis.

O PCS nasceu em 2010, há mais de 12 anos, com a intenção de desmistificar a construção sustentável e informar para a verdadeira necessidade de tornar o setor da construção mais sustentável e menos poluente. Atento aos impactes ambientais deste setor, sempre primou por divulgar informação, conhecimento e soluções construtivas mais amigas do ambiente. Tudo isso está à distância de um clique.

Mas, apesar de alguns avanços, ainda se persiste na mão de obra não qualificada, na construção sem conhecimento e no uso de materiais tradicionais, não adequados a uma construção sustentável. É necessário e urgente financiar medidas que reforcem a eficiência energética dos edifícios e apostar em materiais menos poluentes, como medidas de reduzir a dependência de energia não renovável e contribuir para a descarbonização do setor.

Infelizmente não será um PLANO PARA A POUPANÇA DE ENERGIA que resolverá esta questão tão premente e atual.

*CEO do Portal de Construção Sustentável

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