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Fora da graça de Deus

Fora da graça de Deus

Na aldeia onde fiz a escola primária, entre o final dos anos 70 e o início dos 80, houve um padre que dividiu a população. Nada de muito surpreendente, numa aldeia com um padre, em fase adiantada da ressaca do 25 de Abril. Mas ali era uma divisão a sério. A ponto de, no recreio da escola primária, onde hoje funciona a Junta de Freguesia de Almalaguês (Coimbra), formarmos equipas de futebol segundo a cisão dos adultos: numa, alinhava quem era "a favor do padre"; na outra (a minha), quem era "contra o padre".

Ao longo dos anos, a Igreja católica não me privou de motivos para recordar aquele episódio no pequeno pátio feito campo de futebol, para prejuízo da horta do vizinho, fustigada pelas bolas altas. Desta vez, lembrei-me da história por força do tema de capa da revista "Courrier Internacional" de agosto: "O novo poder da religião na política".

É uma compilação de textos estrangeiros e conta que, nos EUA, os encontros de conservadores parecem cada vez mais cerimónias religiosas. "Deus privou Donald [Trump] da presidência por um tempo por uma boa razão: para que a Igreja acordasse, recuperasse a confiança em si mesma e voltasse a pôr o nosso país de pé", explica um alucinado evangélico num comício de Trump no Arizona. O fanatismo perpassa também em reportagens do Brasil sobre a campanha dos evangelistas por Bolsonaro, da Rússia sobre o apoio da Igreja Ortodoxa à guerra de Putin na Ucrânia, da Turquia sobre como o presidente Erdogan usa o islão para alargar influência fora do país, da Índia sobre "a radicalização assustadora dos hindus". Um quadro tão ecuménico quanto desolador.

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Na minha aldeia, um dia, as fações "a favor do padre" e "contra o padre" chegaram a vias de facto. A GNR teve de intervir. Ficou para a história que foi lá em sete jipes. Eu estava nas aulas e não pude contá-los, o que lamentei por muito tempo. Para as crianças, aquilo podia ser só uma animação. Mesmo quando o padre nos dividiu no futebol, não me lembro de ter havido mais cacetada do que era normal.

Já entre adultos, a guerra abriu feridas que levaram anos a sarar. E ajudou-me a consolidar duas conclusões essenciais, já ditas e reditas milhões de vezes, porém sem efeito. A primeira é que as religiões têm uma queda especial para fomentar conflitos e violência, numa escala sem limites, que os seus mais bem-intencionados fiéis são incapazes de conter. A segunda é que são escolas de virtudes por demais ineficazes, em boa medida por falta de autoridade moral dos seus pastores. Donde, quem um dia defendeu que as religiões foram uma das mais extraordinárias invenções da humanidade devia andar fora da graça de Deus.

*Jornalista

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