Opinião

Governar ao sabor dos ventos

Governar ao sabor dos ventos

1. No seu livro de memórias - "Os anos de Downing Street" - Margaret Thatcher, a maior estadista europeia do século XX, afirma: "Ser primeiro-ministro traz consigo solidão. Em certo sentido, é inevitável: não se pode governar no meio da multidão".

Apesar desta afirmação ter sido escrita há 25 anos, ela mantém-se atual, por mais que a sociedade da informação tenha evoluído, e independentemente da revolução digital e mediática que, entretanto, se regista.

Mas ninguém ignora que a forma de governar de hoje não pode fechar os olhos à pressão do mediatismo, e os modos de fazer política são tão variáveis quanto as motivações de cada agente. Veja-se o estilo de Marcelo Rebelo de Sousa, por contraponto ao do seu antecessor. Para o primeiro, a palavra e a proximidade são uma arma de excelência, enquanto para o segundo o silêncio e a discrição eram regras de ouro.

2. Os tempos de excecionalidade pandémica que estamos a viver põem em confronto estas duas facetas, sendo que o confinamento domiciliário em período de campanha presidencial torna ainda mais atual esta reflexão. Mas há uma realidade incontornável que confere à afirmação da ex-primeira-ministra inglesa o peso de uma espécie de verdade eterna: governar ao sabor das multidões é tão arriscado como governar de costas voltadas para o povo.

No que a Portugal diz respeito, a governação de António Costa demonstra claramente que a sua forma de fazer política oscila entre os empurrões das multidões e o desprezo pela voz do povo. Ou seja, temos uma governação sem rumo certo, ao sabor das circunstâncias, ora aparentando uma determinação musculada, ora cedendo à vozearia mediática, sobretudo ao tom do coro dominante dos comentadores e analistas políticos.

3. Tudo na atual governação é marcado pelo calculismo e pelo experimentalismo. Calculam-se os possíveis efeitos de cada decisão política que se toma, e converte-se a máquina governativa numa espécie de laboratório de experiências, onde cada ministro se assume como um alquimista do alegado interesse público. Triste forma esta de governar um país, sobretudo quando a incerteza e a angústia coletivas são avassaladoras.

Os resultados estão à vista: cada vez mais a economia portuguesa se afasta dos seus parceiros europeus, ao ponto de já nos encontrarmos no penúltimo lugar dos 27, e a caminho de sermos a lanterna-vermelha da União. Infelizmente, tudo indica que depois da pandemia subiremos ao último degrau deste miserável pódio. E nem a prometida bazuca europeia promete salvar-nos desta condenação ao pelourinho dos miseráveis...

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*Professor Universitário e investigador do CEPESE (UP)

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