Opinião

A diplomacia do "depois logo se vê"

A diplomacia do "depois logo se vê"

A América passou de um presidente cerebral para um presidente impulsivo. O que Obama tinha de inclusivo e pacificador, Trump tem de provocador e disruptivo.

Felipe González, líder do Governo espanhol durante década e meia, elabora assim o problema: "É difícil confiar que uma pessoa como o atual presidente dos EUA dê um mínimo de segurança como aliado. Trump é uma pessoa muito ignorante que não sabe que é ignorante. É uma ameaça mas também uma oportunidade para a Europa. Somos 500 milhões, temos muitos problemas. Temos que nos pôr de acordo".

Donald Tusk, o primeiro-ministro polaco que lidera o Conselho Europeu, vai mais longe no desconforto: "Estamos a assistir a um novo fenómeno: a assertividade caprichosa da administração americana. Olhando para as últimas decisões de Trump, uma pessoa até pode pensar: com amigos assim, quem precisa de inimigos?".

O caso não é para menos.

Os líderes europeus estão entre a espada e a parede: não têm alternativa real à grande aliança transatlântica, mas deparam-se com posições que denotam um estilo de liderança e opções de política externa de quem não é bem um presidente dos Estados Unidos.

Ao rasgar o Acordo do Irão, Trump pode ter cumprido promessa teimosa feita à sua base, mas mostrou que, enquanto estiver na Casa Branca, teremos sempre que fazer a pergunta: como continuar a acreditar no que os EUA assinam?

Macron e Merkel bem tentaram evitar o pior. Mas os ventos dominantes em Washington são de rutura, isolamento e uma certa irresponsabilidade em relação às consequências. Com os EUA fora do "Iran Deal", Teerão fica muito menos vigiado e passa a ter álibi perfeito para avançar com um programa nuclear hostil.

Isto é tão claro que só um misto de ideologia cega e uma arrogância ignorante que domina o atual "inner circle" de Trump parece desvalorizar.

Donald tem "estratégia" única e arriscada para o Médio Oriente: diabolizar o Irão e dar gás a uma coligação anti-iraniana que junte Israel à Arábia Saudita, com outros aliados pontuais. A administração americana parece acreditar verdadeiramente numa "diplomacia acelerada" que desvaloriza reuniões prévias e o respeito pelas diferenças - e aposta tudo em "wishful thinkings" mais ligados ao senso comum do que, propriamente, a estudos aprofundados.

O número mediático de dimensão global que Trump fez com Kim em Singapura - sendo histórico pelo encontro inédito entre líderes de EUA e Coreia do Norte - foi mais um exemplo de aposta total nas "perceções", mas quase nada para mostrar no concreto.

Em Helsínquia, o encontro Trump/Putin será mais um potencial momento "photo op" com peso simbólico perturbador: em Washington e em Moscovo há neste momento dois líderes autoritários e anti-União Europeia.

É a diplomacia do "depois logo se vê". Quando a estratégia diplomática do líder da nação mais influente do Mundo é "pode ser que corra bem", a longo prazo dificilmente correrá bem.

No plano interno, vive-se esquizofrenia política: Trump continua a ser um presidente pouco popular (ainda que com níveis de aprovação nos 40%, semelhantes aos que tinha Obama nesta fase do primeiro mandato), mas nem os índices de 90% de rejeição junto do eleitorado democrata leva a que se identifique uma via clara para que se trave a reeleição em 2020.

Os democratas tardam em apresentar renovação forte - e talvez não obtenham em novembro a vitória avassaladora de que necessitam nas intercalares para o Congresso.

A Comissão Mueller avança, mas não com a velocidade que o tempo mediático em que vivemos exigiria. Trump, mesmo que acossado pelo procurador especial que dirige as investigações sobre a "Russia Collusion", vai conseguindo passar por cima das suspeitas e mantém apoio de uma base que lhe confere fortes hipóteses de ser de novo o nomeado presidencial republicano.

O partido de Lincoln e Reagan, depois de fase inicial de indignação anti-Trump, parece rendido ao atual e bizarro presidente dos EUA. A saída de Ryan da liderança do Congresso foi sinal dessa capitulação. John Kasich, governador do Ohio, um dos últimos sobreviventes moderados, resumiu assim à CNN: "Eu não me afastei do Partido Republicano, o Partido Republicano é que se afastou de mim".

Analista de política norte-americana

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