Carta de S. Paulo

A geringonça brasileira

A geringonça brasileira

Os principais partidos políticos brasileiros acabam de definir os seus candidatos à corrida pela Presidência da República. Como os nomes dos postulantes mais importantes já eram conhecidos, foi a vez de os "vice-presidenciáveis" ganharem rosto. O destaque dado a eles, as especulações e expectativas em relação a cada personagem que foi aventado nos últimos dias podem soar estranhos ao estrangeiro. Não aos locais. Os brasileiros sabemos muito bem a importância do vice-presidente. Afinal, desde a redemocratização, nos anos 80, três deles assumiram o posto de seus titulares, às vezes com resultado traumático.

Em 1985, com a doença e morte de Tancredo Neves entre a eleição indireta e a posse, o vice José Sarney virou presidente já no primeiro dia de governo. Seu legado foi a hiperinflação e a eleição de Fernando Collor de Mello, que o sucedeu. Não por muito tempo. Dois anos e meio depois, após um processo de impeachment que culminou em sua renúncia, o próprio Collor cedeu lugar a seu vice, Itamar Franco, que assumiu em 29 de dezembro de 1992. Dinâmica semelhante, embora com outros atores e em uma sociedade bem mais polarizada, levou o atual presidente brasileiro, Michel Temer, a ocupar em 2016 a cadeira de Dilma Rousseff, de quem ele era o lugar-tenente.

Marco Maciel, político brasileiro famoso por suas tiradas e ele próprio vice-presidente de Fernando Henrique Cardoso por oito anos, definiu bem em uma entrevista ao jornal "O Globo": "Quem anda na garupa não segura as rédeas. Vice anda na garupa. Tem que ser discreto, mas não pode ser omisso".

Agora, os olhos se voltam para o candidato a vice-presidente de Luiz Inácio Lula da Silva. Oficialmente, ficou definido que será Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo. No entanto, até as pedras do edifício da Polícia Federal em Curitiba, onde o ex-presidente está preso, sabem que as chances de o petista ter confirmada a sua candidatura pela Justiça são pequenas, para não dizer mínimas. Para garantir a cédula completa, o PT já se articulou com o PCdoB, deixando a atual candidata comunista à Presidência, Manuela D"Ávila, de stand-by para renunciar a sua postulação no prazo limite, de 17 de setembro, virando assim a vice de Haddad, que no impedimento de Lula assumiria a cabeça da chapa.

Assim, o Brasil inova mais uma vez. Além de vice-presidentes que assumem a Presidência, criamos a figura do candidato a vice-presidente fadado a assumir o posto de candidato a presidente, já com uma candidata a vice engatilhada. Eis a verdadeira geringonça.

*Editor-executivo do jornal Folha de São Paulo

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