Opinião

A tecnologia é uma arma

A tecnologia é uma arma

A tensão com o Irão é crescente e assusta. A ameaça nuclear da Coreia do Norte faz-nos oscilar entre o sorriso trocista pelo delírio megalómano de Kim Jong-Un e um pavor sobre apocalipse provocado por um ditador com ar de adolescente. O Brexit põe em risco a viabilidade do projeto europeu, pelo menos no modo próspero e bem-sucedido como o conhecemos durante décadas.

Sim, poderíamos elencar umas quatro ou cinco grandes questões internacionais que nos afetam e perturbam. E todas já nos pareceram "a mais relevante e perigosa questão do momento". Na verdade, nenhuma delas chega em dimensão e durabilidade à rivalidade entre Estados Unidos e China.

Se, até à queda do Muro de Berlim, a relação fundamental residia na tensão entre EUA e URSS, o "mundo pós-americano" deste final da segunda década do século XXI é definido pelo duelo EUA/China.

Com uma diferença decisiva: enquanto americanos e soviéticos não tinham qualquer ligação entre si (e, por isso, puderam equilibrar-se numa "Guerra Fria"), as sociedades de EUA e China estão profundamente interligadas.

E isso faz mesmo toda a diferença.

Com a guerra comercial, Trump põe travão momentâneo à expansão chinesa - mas joga, apenas, na perceção junto do seu eleitorado de que está a ser duro para com os rivais dos EUA.

As tarifas são o instrumento mais objetivo que o inquilino da Casa Branca encontrou para travar a ascensão chinesa. Pode ter o efeito desejado a curto prazo - mas tem tudo para dar errado.

A China baseou parte do seu crescimento no mercado e na dívida americana. Em 2012, quando ultrapassou o Japão como segunda maior economia, valia 59% da riqueza dos EUA. Hoje já vale 77%. A liderança da China, com os atuais parâmetros, é só uma questão de tempo.

Trump tem a ilusão de travar esse processo com a hostilidade política, comercial e empresarial com Pequim. A passagem do político (Administração Trump) para o empresarial (Google) torna a hostilidade americana à China num problema ainda mais concreto e ameaçador.

Mais do que as suspeitas de espionagem que recaem sobre a Huawei, o principal alvo da Administração Trump em relação à gigante tecnológica chinesa chama-se 5G. Trump associa diretamente a guerra comercial com a China à segurança nacional. Num ambiente como este entre as duas maiores economias, a tecnologia passou a ser, literalmente, uma arma.

*Analista de política americana