Opinião

A vitória dos medíocres

A vitória dos medíocres

Pior que uma má decisão isolada só mesmo várias más decisões consecutivas. Pior ainda será quando tentamos acomodar e normalizar o que não devia estar a acontecer.

Em democracia, as lideranças políticas têm ciclos. Durante décadas, vigorou na Europa e nos EUA a alternância de regimes, entre perspetiva aberta ao mercado e outra mais dependente da intervenção do Estado. Pelo meio, dependendo da geografia e de heranças culturais e históricas, houve "nuances".

A democracia implica liberdade de escolha. Mas a saúde das sociedades livres, abertas e complexas funda-se em regras não escritas de respeito pela opinião diversa, contrapeso entre poderes distintos e preferência pelos mais capazes.

Os últimos anos colocaram esses pressupostos em risco.

O populismo tem um problema central: desvirtua os modelos.

Quando vemos uma sociedade com pilares tão sólidos como o Reino Unido cair na armadilha populista do Brexit - um desastre cada vez mais inevitável, em que todos perdem e ninguém faz a mínima ideia do que fazer - detetamos perigo iminente.

Quando vemos uma sociedade tão diversa e pujante como a norte-americana eleger alguém como Donald Trump para presidente, percebemos que o sinal de alarme já está no vermelho.

Quando assistimos ao modo galopante como alguém como Jair Bolsonaro conseguiu passar da marginalidade no sistema político brasileiro para ocupante do Palácio do Planalto, após triunfo eleitoral perturbadoramente folgado, concluímos que a sociedade brasileira não pode estar a viver um momento de normalidade democrática.

Não tenhamos medo das palavras. O Brexit foi a decisão política mais estúpida dos últimos anos e abriu processo perverso no qual ninguém de bom senso deposita sentimentos positivos. Trump é um presidente bizarro, que desdenha a verdade factual e assume comportamento que faz corar, em privado, quem o apoia em público por motivos cegamente ideológicos. Bolsonaro só lidera o Brasil porque o eleitorado entrou numa espécie de pânico coletivo em relação à criminalidade e ao sentimento de penalização da "corrupção do PT" (dois fenómenos reais, mas cujos contornos foram extrapolados pelas perceções criadas pelas "fake news", propaladas no WhatsApp).

Resistirá a "livre Inglaterra" à maior ameaça à sua integridade desde a II Guerra Mundial? Como ficará o eleitorado da Direita "tradicional" dos EUA depois do "intervalo Trump"? Como sairá o Brasil, país de tolerância e saborosa produção cultural, desta "armadilha ultradireitista" em que se meteu?

Não se trata de desrespeitar a vontade legítima dos eleitorados britânico, norte-americano ou brasileiro.

Trata-se de ter o discernimento suficiente de identificar feridas em comum nestas três lamentáveis decisões de países fundamentais para o nosso "mindset": todas foram baseadas em mentiras e na exploração de sentimentos divisivos e negativos.

Do mesmo modo que o improvável aconteceu entre 2016 e 2018 no Reino Unido, EUA e Brasil, estes três grandes países saberão reencontrar o seu caminho. Falta saber com que sequelas internas até que surja a redenção.

As democracias têm fases de avanços e recuos - e ganham em acolher diversidade. Mas se não forem capazes de assegurar o triunfo dos moderados, de modo a travar a ascensão dos extremismos, correm o risco de entrar em autofagia.

Era suposto que a democracia fosse capaz de gerar "o governo dos melhores". Não podemos assistir impávidos à vitória dos medíocres.

Analista de política americana

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