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Opinião

Católico, eu me confesso

Católico, eu me confesso

Tenho a família e a pessoa humana no centro da ação política. Foi assim que fui moldado e só assim sei estar na vida. Sobretudo quando vejo posições de alguns que mais não são do que uma vassalagem às ideologias, esquecendo as pessoas como destino último da ação política. Vem isto a propósito da recente abolição do prazo internupcial. Até à semana passada, um homem que quisesse voltar a casar depois do divórcio tinha de esperar 180 dias. Mas, pior, as mulheres eram obrigadas a deixar passar quase o dobro do tempo. Uma discriminação intolerável em pleno século XXI feita em nome da figura da "presunção da paternidade".

A vida pública, e em particular a ação política, não é um concurso de beleza: numa semana agrada-se à comunidade LGBT, pintando passadeiras às cores, e na outra pisca-se o olho à agenda conservadora. E depois ainda há quem se admire com a perda de credibilidade dos partidos. Sou católico - chamem-me progressista se quiserem. Vivo empenhadamente a minha relação com Deus. Mas respeito igualmente todos os credos e todos os que não os professam. É nessa tolerância e liberdade que fui educado. Há uns meses, tive um dos maiores privilégios da minha vida. Em Roma, no Vaticano, fui recebido pelo Papa a quem, fazendo jus à solenidade do momento, entreguei as chaves da Vila de Cascais. Com rosto fechado, Francisco atirou: "Miguel, sabes que já não é autorizada a entrega de chaves da Vila?". Gelei. O Papa deixou-me paralisado mais uns segundos (que pareceram horas). "Agora só se entregam chaves do Cofre da Vila!" disse, abrindo um sorriso genuíno. Eu acompanhei-o com alívio. Este pequeno episódio revela o anacronismo de alguns face ao progressismo, simplicidade e tolerância do líder da Igreja. A simplicidade deste homem, a humildade da certeza de não ser possuidor da verdade absoluta e a capacidade de tolerar e aceitar a diferença com um humor universal, contrasta bem com a necessidade de outros tentarem, permanentemente, ser os "Fangios" da moral e dos bons costumes. Sou divorciado e voltei a casar. Tenho três filhos. Sou feliz e nunca perdi a minha Fé.

*Engenheiro e autarca do PSD