Opinião

Come a sopa, ladrão…!

Come a sopa, ladrão…!

Quando miúdo, para me obrigar a comer a sopa, a minha avó dizia: "Come a sopa, rapaz, senão vem aí o homem do saco que te leva!". Dessa forma, a sopa depressa se tornava num apresigo de eleição. Nem um arroz de perdiz ou uma saca de confeitos cairiam melhor do que aquela (des)abençoada sopa de feijões e beterraba de que hoje só a lembrança me faz crescer água na boca. É que o "homem do saco" (tal como o "trasgo", a "maria da manta", o "tendeiro", o "farronca" ou o "tranglomango") era o terror de qualquer miúdo do meu tempo. Apareciam por lá, de quando em vez, mendigos, quinquilheiros ou vadios, de saco às costas, gente que ninguém sabe de onde vem ou para onde vai, e que a pequenada encarava sempre com desconfiança e medo, pois, na sua imaginação, personificavam esse temível "homem do saco".

Coisas da minha longínqua meninice, que valem o que valem. Mas um e dois séculos antes, noutros universos transmontanos, também se dizia: "Come a sopa, ladrão, senão leva-te o Conde de S. João!". O Conde de S. João (mais propriamente Luís Álvares de Távora, Conde de S. João da Pesqueira) era o terror destas paragens. Os castelhanos fugiam dele como o diabo da cruz. Descendente da linha mais belicista dos Távoras (os sanguinários Thedon e Rausendo) que combateram os mouros na Reconquista, residia no castelo de Chaves e dali saía a saquear os vizinhos lugares da Galiza. Notabilizou-se na afirmação da autoridade nacional nas fronteiras, e, entre os espanhóis, bastava ouvir dizer "Vem aí o Conde de S. João!" para todos fugirem aterrados ou se entregarem. Daí também que as mães, usando tal ameaça, assustassem os filhos quando faziam birra.

Tudo isto, afinal, para chegar onde? A um simples prenúncio ou intuição: com tantos e disparatados alvitres que vejo alimentarem, risivelmente, o espaço mediático recente, nada ou quase nada me espantará se, a breve trecho, ouvir por aí alguém dizer: "Come a sopa, ladrão... senão vais para o panteão!".

ESCRITOR E JORNALISTA

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