Opinião

Crato e a Guilda do espaço

Crato e a Guilda do espaço

Quando escreveu Dune (1965), o incrível Frank Herbert estabeleceu que a Guilda do espaço teria poderes monopolistas sobre as viagens interestelares e sobre a regulação bancária do Universo, o que lhe permitiria um controlo da comercialização da mélange (a substância alucinogénia capaz de transpor o tempo e o espaço) e a limitação do poder político do imperador. A ideia de corporações do comércio a mandar no Mundo, fazer guerras planetárias e a modular, ou mesmo fazer, as leis, foi retomada, como se sabe, por George Lucas, aquando da criação da saga épica da Guerra das estrelas (1977). É certo que no universo de George Lucas a Corporação do comércio é pouco subtilmente controlada pelo Imperador Palpatine, outrora chanceler da República e a face profana do Lado negro da força, o inverso luciferiano da nobreza cavaleiresca Jedi. Mas o princípio que ordena um e outro caso é o mesmo: o comércio comanda e o povo é comandado.

Muitas eras depois, numa galáxia distante, Nuno Crato manda que seja uma empresa privada planetária, de marca Cambridge, a regular e certificar o ensino do Inglês na escola pública portuguesa, para o que não só lhe paga o que um contrato, sem concurso, decidiu, mas, mais ainda, para o que disponibiliza os professores do ensino público de inglês, funcionários públicos, como base operacional e científico-pedagógica do instrumento de regulação privada. Tudo isto é ficção hollywoodesca, como vê. Só num mundo de ficção excelentíssima o ensino público seria regulado e certificado por uma empresa privada que, para tal, usaria os recursos do próprio ensino público a certificar, fazendo-se pagar por essa suposta regulação e certificação.

Oraciocínio e a acção são negros e perversos, bem entendido. Mas, convenhamos, mesmo nesta ficção, Crato não chega a ser um Palpatine negro, sequer um Darth Vader transido de ódio e desejo de poder. Falta-lhe coração. É certo que o mobiliza um mesmo desejo de destruição e de criação revolucionárias do Homem novo comercial, treinado, desde a mais tenra idade, a ser aquilo para que nasceu. Mas, nesse fito, Crato não passa de um exemplar branco e baço do Exército dos clones, fabricado para a exortação das virtudes salvíficas da competição. Bem entendido, entretanto, nesta paranoia comercial e destrutiva, Crato vai-nos matando um pouco, aqui e ali, todos os dias. Mas lá virá o momento em que uma rajada de vento o levará e em que a República poderá respirar novamente. Não podemos é deixar de soprar um pouco todos os dias.

Professor de Filosofia