Opinião

É hora de dizer basta!

É hora de dizer basta!

Na ocasião em que, pela pena do reitor da UTAD, ficou a saber-se que o Movimento pelo Interior estava extinto, considerando cumprida a missão que justificara a sua criação, noticiava o JN, em manchete, que os produtores de leite estavam a ser pagos para deixarem de produzir. Claramente, mais uma bofetada no Interior! Em risco fica a sobrevivência de pequenas empresas, boa parte de cariz familiar, que vitalizam economicamente muitas comunidades do país rural.

Mas o paradoxo da situação está ainda na incontornável contradição do Governo, tão afanoso nas demonstrações que quer dar em favor do Interior, mas que é incapaz de sentar a uma mesa os responsáveis das grandes superfícies, comprometendo-os com o desígnio nacional de optarem pela compra do leite e seus derivados a produtores portugueses e não a produtores estrangeiros, seguindo o exemplo do país vizinho com as medidas protecionistas da produção nacional que se conhecem.

Pagar a produtores para não produzirem traz-me à lembrança a experiência nefasta de há três décadas, com o Estado a pagar aos agricultores para abandonarem a atividade sob a justificação de que a nossa agricultora não era competitiva perante os parceiros da Comunidade, pelo que não era necessário produzir e melhor seria comprar tudo ao estrangeiro. E o resultado é o que se vê: destruída a estrutura agrária no mundo rural, os campos ao abandono, retirados e desmantelados serviços públicos, deu-se o êxodo rural, ficando um território-fantasma com uma população idosa a suportar as frágeis condições de sobrevivência das pequenas aldeias. Uma triste realidade que os fenómenos dramáticos recentes estão desgraçadamente a pôr a descoberto.

E por incrível que pareça, quando o Movimento pelo Interior vem dizer basta!, apresentando ao Governo um conjunto de propostas de medidas estruturais, muito pensadas e refletidas, que procuram travar e corrigir este cenário dramático, eis que um coro de agasalhadas vozes, que sempre soam das tubas ruidosas da capital, vem em protesto, tentar impor os argumentos do costume. Os mesmos de outros tempos. Desengane-se quem lhes dá ouvidos. O país sempre andou para trás quando essas vozes falaram alto.

*ESCRITOR E JORNALISTA

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