Opinião

Ideologia ou melhor saúde?

Ideologia ou melhor saúde?

Em fevereiro, um "grupo de 125 notáveis" subscreveu um manifesto com um apelo aos deputados da AR para que a Lei de Bases da Saúde fizesse uma "inequívoca distinção entre os setores público e privado", colocando um ponto final na possibilidade de, no futuro, existirem parcerias público-privadas no setor da saúde em Portugal. Notáveis como Manuel Alegre, Pilar del Rio, Rui Tavares, D. Januário Ferreira ou Arménio Carlos - todos, como é sabido, com extensa experiência na gestão de unidades de saúde - decretaram então que o problema do SNS tinha uma, e uma só, causa: o regime de parceria público-privada.

Acontece que esta convicção inabalável não só não tem sustentação técnica como é factualmente desmentida. O mais recente estudo do sistema nacional de avaliação em saúde sobre excelência clínica, da Entidade Reguladora da Saúde, atribui os três primeiros lugares do pódio a hospitais em PPP. São eles o Hospital de Vila Franca de Xira (PPP que o Governo decidiu não prolongar), o Hospital de Cascais e o Hospital de Braga. O Hospital da Prelada, no Porto, e os hospitais da Luz e CUF Descobertas, em Lisboa, completam o lote de instituições com gestão privada e/ou social que ostenta o selo de excelência clínica.

Os públicos ULSAM, CHVN Gaia/Espinho e CHTMAD figuram também no top 10 dos estabelecimentos distinguidos.

No mesmo relatório, a ERS indica que das 84 mil reclamações registadas em 2018, 67% respeitam a unidades públicas, 23% aos privados, 8,9% em unidades em PPP e 1,2% no social.

A prestação de cuidados de saúde em Portugal carece de investimento, de profissionais valorizados e de gestão eficiente. Continua por demonstrar que a cristalização ideológica consiga resolver listas de espera e diminuir tempos de resposta aos utentes.

* GESTOR DE EMPRESAS