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Opinião

Novidade ontem, velharia hoje

Novidade ontem, velharia hoje

"Todo o mundo é feito de mudança" - sentenciou o nosso maior épico no século XVI. Verdade incontestável já intuída por Camões. Curiosamente, há inovações tecnológicas e científicas que acabam por ser reavaliadas ao longo do tempo. Depois de "marinar" no fermento dos dias, no olvido dos seres humanos, em função da utilidade ou repugnância social das novidades nas sociedades epocais.

Fazer novo com o velho é a receita que Steven Poole descreve na obra "Rethink", um cartapácio exemplar do eterno retorno na História: acha o leitor que o automóvel elétrico é uma invenção recente instigada pelos reptos atuais da sustentabilidade ambiental? Errado. O primeiro veículo elétrico foi construído por Thomas Davenport em... 1835 e, por volta de 1895, Thomas Edison, o multifacetado inventor, conduzia um modelo dotado de bateria, Já antes, em 1882, circulava em Berlim um modelo lançado pela Siemens-Halska.

No início do século XX, nos EUA, fabricavam-se carros elétricos e subestações de reabastecimento, sendo que 28% dos veículos aí produzidos eram elétricos e atingiam uns "vertiginosos" 30 km/h. O pico de vendas de carros elétricos ocorreu no início dos anos 1910, com a utilização massiva da eletricidade. Mas, o petróleo que começara a jorrar na Pensilvânia, em meados do século XIX, inundaria os "States". A invenção do motor de arranque elétrico tornaria os carros movidos a gasolina uma opção bem mais acessível com a produção industrial iniciada por Henry Ford.

Hoje, é o arquiadversário de Edison, o sérvio Nikolas Tesla, o génio mais injustiçado do planeta - e de quem se diz ter sido espoliado pelo americano de várias patentes - quem desfila o seu nome pelas estradas em alternativas móveis aos perniciosos efeitos dos gases comburentes.

Na medicina, há "novas" ideias sacudidas do pó no baú do bricabraque, agora revalidadas pela pragmática da eficácia: a utilização de sanguessugas e da larva das moscas parece-nos medieval q.b., hoje, na sociedade assética que fomos construindo. Pois bem, há cirurgiões a recuperar os repugnantes bichinhos: afinal, os compostos químicos da saliva das sanguessugas fluidificariam o sangue nos vasos sanguíneos evitando a necrose de certos órgãos. No que toca às não menos repelentes larvas, alimentando-se de tecidos mortos, estimulariam o tratamento de feridas de difícil remissão e tornam-se, nos cadáveres, preciosos "detetives" no âmbito forense.

E que dizer das plataformas recentes que chegam hoje a nossa casa com os sons e as imagens da instantaneidade interminável? Um projeto futurista prenunciou as atuais modalidades mediáticas personalizadas. A data? 1880. Sim, leitor, não é gralha. Um tal William Leiniers retomou o fonógrafo de Edison e concebeu o "Daily Phonographic" que, no século XIX, já não chegava, como era comum, às mãos dos assinantes, dobrado e cintado. Em vez do papel, o veículo noticioso consistia antes numa folha de estanho que, no fonógrafo ordinário e enrolado em volta do cilindro, recebia a versão sonora, indefinidamente reproduzida por meio da galvanoplastia, da edição em papel do "Grand Journal".

Na redação, havia um enorme fonógrafo junto do qual os redatores recitavam, todas as tardes e em voz alta, os seus textos. As folhas de estanho que serviam de clichés eram depois sujeitas a correntes elétricas, antes de serem enviadas aos assinantes nessa mesma noite. Na manhã seguinte, os subscritores apenas tinham de aplicar o ouvido ao seu fonógrafo doméstico para saber das "últimas". Este protótipo de jornal digital angariou, à época, uma adesão imediata, tendo a empresa do jornal investido cinco milhões de francos na inovação e, segundo as contas, com um menor investimento face à edição em papel. Mas, como em tantas outras inovações, há cerca de 140 anos, a curiosidade em torno do "jornal fonográfico" não bastou para promover a sua adequação social e económica. Do velho se faz novo. Ou Lavoisier no seu melhor.

*HISTORIADOR

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