Opinião

O desencantamento

Os ingleses preferiram o "grand large" ao continente. Na reação aos resultados do referendo, o presidente da Comissão, Jean-Claude Junker, um político experiente e respeitado, deu uma conferência de imprensa para dizer aos ingleses que apressem a partida. Parece que acabou com aplausos... dos funcionários. Perfeita alegoria.

O resultado do referendo foi a muitos títulos surpreendente. A começar pelo argumento do medo. Alguns criticaram-no como impróprio, mas ele sempre me pareceu razoável, já que não há nada de mais legítimo do que apelar à recusa do que é desconhecido e imprevisível. O que me surpreende é que este argumento, que nada tem de irracional, tenha sido insuficiente para convencer os britânicos a ficar. Primeira lição: o nível de insatisfação tinha de ser profundo para ainda assim, sem sabermos o que vai acontecer a seguir, decidir partir.

Por outro lado, para quem é europeísta, a decisão de sair teve, é certo, más razões. O argumento da imigração é, aos meus olhos, desprezível. A invocação do problema dos refugiados é também indigno para um país com as tradições e as responsabilidades dos britânicos. Aliás, não parece despropositado lembrar que, para além da proteção do direito internacional, estes refugiados poderão invocar que, em parte, as suas vidas foram destruídas por uma guerra injustificável que o Reino Unido iniciou e na qual participou.

Tudo isto é certo e todavia tudo isto não chega como explicação. É preciso estar cego para não ver também nesta decisão razões bem positivas e democráticas. A recusa em ser governado por aparelhos administrativos, que não só não são eleitos como não respondem perante ninguém, devia convidar a Europa a debater seriamente o chamado deficit democrático das suas instituições. Em particular, quando ainda recentemente, com o Tratado Orçamental, lhe foram atribuídos poderes que permitem recusar propostas orçamentais antes de serem aprovados pelos parlamentos nacionais. O sentimento que temos de que um anónimo grupo de funcionários europeus determina mais a nossa política orçamental do que o nosso voto é desesperante. Não há nada mais autoritário do que o Governo de ninguém. Num Governo tirânico, sempre podemos responsabilizar o ditador e fazer tudo para o afastar. Não é o caso do Governo em que não elegemos ninguém, nem podemos responsabilizar ninguém, porque não conhecemos ninguém. Segunda lição: a deriva tecnocrática é a causa principal do desencantamento do projeto europeu.

Mas talvez o pior tenha sido o que me parece ser a desconfiança britânica de que por detrás deste Governo de funcionários estivesse, afinal, a Alemanha. A liderança impositiva que substituiu a tradicional liderança inclusiva de uma União entre iguais é, sem dúvida, um dos traços mais marcantes e deprimentes do atual projeto europeu, que conduziu a uma profunda desconfiança entre os do Norte e os do Sul e entre o centro e a periferia. Terceira lição: este é o primeiro sinal de insubmissão à "pax germânica" em construção.

A convocatória do referendo foi uma aventura. A negociação entre a Europa e o Governo de Cameron uma desgraça. A defensiva campanha pela permanência, no mínimo embaraçante, pelo menos para quem é europeísta. Mas tudo isto já foi, agora é preciso construir em cima disto. Porque a verdade é que tudo pode acontecer - o melhor e o pior. E a primeira tarefa construtiva compete aos líderes da saída, que precisam de dar uma resposta positiva ao que propuseram. Não me parece que tenham a vida fácil, em particular com a sua própria unidade. Com efeito, vai ser preciso muita imaginação para apresentar boas razões aos escoceses que queiram, também eles, reclamar: "we want our country back".

A Europa tem uma dura tarefa pela frente. Depois de cerca de 17 milhões de cidadãos, que ontem eram europeus, terem dito que não querem continuar, parece-me irresponsável responder com ressentimento. Ou pior ainda, com o argumento do populismo, como se tudo o que é decidido pelo povo e não pelos funcionários fosse desdenhável. Quarta lição: a única reação política à altura dos tempos é uma resposta enérgica e urgente de reforma democrática da União. Os especialistas do "realismo" dirão que não há condições políticas, ou que não há consensos, ou que não há seja lá o que for. Pois o que digo é que há momentos em que o que menos precisamos é dos especialistas da "prudência" - o pior é nada fazer. A resposta mecânica, impessoal e defensiva podemos deixá-la aos funcionários dos aparelhos burocráticos, que "dão tudo a quem deles espera tudo, porque... nada são fora deles".