Opinião

O milagre dos irmãos

Gostava de ter escrito, em jovem, uma carta para mim em adulta, à beira dos 40, e de juntá-la aos balanços, crises e dores de crescimento que aparecem por esta idade. Queria ter adotado rituais importados da América, que vi nos filmes e na televisão, preservando durante muito tempo, num local seguro, uma cápsula do tempo, reluzente de sonhos, a abarrotar de planos, amontoando cartografias do destino e inscrevendo, para memória futura, certezas absolutas sobre tudo e mais alguma coisa.

Não o fiz.

Sei hoje que nunca poderia imaginar o que a vida me reservava. A vida fez de mim mãe de quatro filhos, quatro irmãos que crescem (rápido de mais) lado a lado, ruidosa e desarrumadamente, entre cumplicidades e rivalidades, companheirismo e invejas, gargalhadas e birras, panelinhas e queixinhas, acusações e entreajuda, drama e leveza.

A tal carta nunca poderia antecipar a fortuna de poder assistir todos os dias à magia de quatro irmãos que, partilhando algumas semelhanças entre si, são tão únicos e diferentes uns dos outros, ao ponto de, às vezes, me questionar se realmente são filhos dos mesmos pais. É uma poderosa polifonia.

Hoje, sabe-me a pouco ter apenas quatro filhos, mas, em jovem, debaixo de uma carapaça de modernidade e um feminismo meio bacoco, teria alvitrado que este, que é o meu destino, seria menor. Não poderia estar mais enganada.

Hoje, também sei que, pontualmente, ao longo da vida, enfrentamos momentos determinantes que podem mudar o curso do futuro. Pode ser um golpe de sorte, um acaso ou coincidência; pode ser uma pessoa - um estranho ou um amigo -, um sinal divino, ou uma epifania. Assume todas as formas. Cabe-nos em poucos segundos ter a clarividência para reagir: fazer uma escolha e continua a navegar.

Quando soube que esperava o meu quarto filho, a minha preciosa Isaura, senti que o chão firme que pisava me engolia. Acabara de fazer uma terceira cesariana de uma filha planeada e desejada, que ainda era bebé de colo e de mama, e regressara ao trabalho há muito pouco tempo. Subitamente, vi-me perante uma gestação de altíssimo risco.

Uma mãe - acho - dá sempre o corpo às balas por um filho; e o risco para a minha saúde não me paralisou. Mas tropecei, sem querer, para dentro de uma espiral de pânico e teimei que a Aurora odiaria este bebé, esta irmã surpresa e milagre, que chegara sem ter sido chamada e lhe roubaria o colo com ela tão pequenina.

Dramatizei. Levei ao extremo a angústia, imaginando duas irmãs quase gémeas, inimigas e rivais desde a nascença.

Até que se deu o tal advento determinante que mudou o curso da minha vida: uma psicóloga do Hospital de Santa Maria foi o meu garrote e estancou aquela insanidade temporária hormonal. Disse: "Diana, elas vão ser as melhores amigas. Para toda a vida. Este é o melhor presente que lhes pode dar e os mais velhos vão sempre protegê-las. Vai haver tanta alegria na sua casa; está na hora de parar de chorar."

Foi a 29 de abril de 2014. O dia em que eu parei de chorar e passei a assistir, incrédula, ao milagre dos irmãos.

Não escrevi a tal carta, é verdade. Mas agora redimo-me e subscrevo a petição pela criação do Dia dos Irmãos, a 31 de maio.

* CONSULTORA DE COMUNICAÇÃO

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