Opinião

O sonho americano resistirá a Trump

O sonho americano resistirá a Trump

O que nos faz olhar para a América com um misto de admiração e orgulho é a capacidade fantástica que os Estados Unidos têm de concretizar o "sonho americano" para qualquer um que através do trabalho e do esforço, e sem olhar à origem ou religião, o queira abraçar.

Barack Obama corporizou essa ideia e, enquanto presidente, interpretou-a com a aprovação, em cima da sua segunda eleição presidencial, do DACA (Deferred Action for Childhood Arrivals), programa que concede autorização temporária de dois anos a imigrantes ilegais e que garante proteção às crianças nascidas em solo americano, filhas de imigrantes ilegais.

Estamos a falar de quase 800 mil jovens, crianças e adolescentes (tinham de ter menos de 31 anos a 15 de junho de 2012), nascidas muitas delas já em solo americano. Obama chamou aos beneficiários deste programa federal, dos tais que dependem diretamente da assinatura do presidente, "dreamers".

Isso mesmo, os sonhadores que, nos próximos anos, interpretarão o sonho americano na sua forma mais pura.

Essa ideia é tão forte e poderosa naquele grande país que até Donald Trump - durante a sua infame campanha presidencial, em que insultou imigrantes em geral e mexicanos em particular - ressalvou que iria preservar os direitos dos "dreamers" no meio de todo aquele plano superagressivo de "expulsar 12 milhões de imigrantes ilegais", construir um muro enorme para separar EUA e México e fechar o acesso a cidadãos de vários países muçulmanos.

Mas até nisso Trump está a falhar: afinal, vai revogar o DACA, terminando-o, por via do Departamento de Justiça, até março de 2018.

Donald deu seis meses ao Congresso para "rever o DACA" e, caso isso aconteça, reavalia a sua decisão daqui a meio ano. Barack Obama já veio censurar a decisão do seu sucessor. E com termos claros e inequívocos: "Fazer de crianças indefesas um alvo é injusto, errado e cruel. Porque eles não fizeram nada de errado. Quem toma uma decisão dessas está a assinar uma derrota pessoal".

Obama recorda a Trump que a América se funda no valor e na mais-valia de pessoas como os "dreamers": "Eles querem começar novos negócios, empregam as suas oficinas e laboratórios e contribuem para este grande país com amor. Isto é cruel".

Ao revogar o DACA e voltar atrás na sua palavra de campanha de "proteger as crianças nascidas nos EUA que sejam filhos de imigrantes ilegais", Trump volta a provar que não é bem um presidente dos Estados Unidos.

* JORNALISTA/ESCRITOR