Opinião

Pior do que não veré negar-se a ver…

Pior do que não veré negar-se a ver…

O SNS está a entrar em colapso. A dívida na saúde e os pagamentos a fornecedores estão a aumentar. Não são tomadas medidas para dotar os hospitais de orçamentos realistas que façam face às graves dificuldades. Até a contratação de serviços simples são um enorme problema. Mantêm-se administrações em funções de gestão, durante meses, afetando sobremaneira as atividades de gestão, com prejuízo dos serviços prestados.

A passagem para as 35 horas veio aumentar as dificuldades que já se sentiam, levando ao encerramento de camas e ao adiamento de cirurgias. Esta realidade, anunciada há quase um ano, não foi acautelada, nem o recrutamento atempado dos profissionais, que se sabia serem indispensáveis e já foi anunciado que não o serão totalmente este ano. Apenas se contrataram alguns em pleno período de carência, em número insuficiente e sem lhes dar a imprescindível oportunidade de integração. Estão em causa os cuidados mais básicos, como o banho diário, a alimentação assistida, a vigilância dos sinais vitais, a mudança de fraldas ou a mobilização dos doentes.

Dezasseis chefes de equipa da urgência do Hospital de São José apresentaram uma carta de demissão. Seguiu-se os da Maternidade Alfredo da Costa e outras estão na calha. Os cuidados primários de saúde continuam estagnados. A confusão é tanta que até os serviços prisionais foram atingidos.

Assistimos inclusivamente a algo inédito - ter que ser o Tribunal de Contas a recomendar o financiamento adequado às necessidades reais dos hospitais.

E o ministro da Saúde o que faz? Ignora alertas, desvaloriza queixas, mentindo descaradamente à sociedade ou defendendo-se com números que a população não sente e que não refletem, em absoluto, a atividade clínica dos profissionais que, à custa do sacrifício pessoal, são os verdadeiros responsáveis por esses indicadores.

À verborreia política, oca de significado prático e que tudo tenta encobrir, está a sobrepor-se a realidade nua, crua e inegável. Precisamos de um ministro forte que seja capaz de assegurar as condições necessárias junto do Governo, que traga satisfação à população que o SNS serve e um sentimento de realização profissional a todos os que trabalham na saúde. Ao invés, temos debilidade, delírio e negação da realidade. Os portugueses merecem mais.

PRESIDENTE DA SECÇÃO REGIONAL DO NORTE DA ORDEM DOS MÉDICOS

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