Opinião

"Que se lixe a Educação!"

"Que se lixe a Educação!"

"Os profissionais da Educação manifestam desencanto com o tratamento infligido por quem tem a obrigação de os proteger, sem a obsessão pelos números, como se a vida se resumisse ao economês. Se é verdade que o ministro das Finanças vai ser recordado por ter alcançado lugar de enorme prestígio para ele - presidente do Eurogrupo (ainda está por descobrir, e explicar, qual o benefício para Portugal e, sobretudo, para os portugueses...), também não será esquecido, a título de exemplo, pelo (ab)uso frequente de um instrumento hipócrita, ilusório, autêntica realidade virtual de mau gosto para quem aplica, no concreto, os dinheiros públicos: as cativações", in JN de 17 de janeiro do presente ano.

Retomo, neste âmbito, o assunto abordado no artigo intitulado "Mário Centeno, o cativador", por o considerar cada vez mais atual, em prejuízo para a Educação e, sobretudo, para a escola pública!

O atual ministro das Finanças (MF) portuguesas tem-se mostrado inflexível relativamente à aposta na área que o Governo dizia prioritária - a Educação. Elejo três enquadramentos assaz elucidativos:

1. Não reconhecimento do tempo de serviço efetivamente prestado pelos docentes - as negociações (?) entre o Ministério da Educação e os sindicatos de professores suscitaram "cumprimento de calendário", vazias de esperança na reposição da justiça; a paz necessária nas instituições públicas, também nas escolas, tarda em chegar e tende a agravar-se na inexistência de uma solução consensual; um final de ano letivo tal como o anterior, levaria o caos às nossas escolas, sedentas de estabilidade;

2. Escassez de assistentes operacionais e técnicos - recentemente foi anunciada a chegada de 1067 assistentes operacionais às escolas, alguns dos quais incluídos numa bolsa de recrutamento; contudo, muitas dúvidas subsistem: o número de efetivos será suficiente? Para quando a abertura do respetivo procedimento concursal? Em que moldes funcionará a bolsa que permitirá a substituição das baixas médicas? Igualmente preocupante é a falta de funcionários nas secretarias de algumas escolas, causada pela "fuga" para outros ministérios com carreiras mais aliciantes do que as dos serviços administrativos das escolas;

3. Regresso de professores em condição de saúde frágil ou incapacitante - vil e humilhante é a decisão assumida pela ADSE que obriga professores a regressarem às escolas, e recomenda, hipocritamente, a atribuição de "serviços moderados adaptados à sua condição clínica", sacudindo a água do capote; doentes oncológicos, em hemodiálise, vitimados por AVC, e outros, são exemplos de casos reveladores da insensibilidade legislativa e humana que afeta profissionais magníficos, merecedores da dignidade que lhes é, desta forma, negada. O que motiva tamanha torpeza?

É inadmissível decidir sobre questões das quais só se teve conhecimento quando se passou pelos bancos da escola. Deveria ser obrigatório que todo e qualquer ministro das Finanças visitasse uma escola pelo tempo necessário para perceber a atual dinâmica das mesmas, os seus virtuosismos, assim como os seus constrangimentos, com grande parte dos quais se debatem diariamente os credores da consideração de todos - os professores. Que honra há em ter um ministro apelidado de "Cristiano Ronaldo das Finanças" apenas para benefício da vaidade pessoal de quem tem obsessão pela redução do défice, porém, sem visível mais-valia coletiva?

Combativa e empreendedora, a escola pública eleva diariamente a sua qualidade, que, inequivocamente, seria potenciada, não fosse o "gestor do dinheiro do povo" na linha do "que se lixe a Educação!".

* PROFESSOR/DIRETOR

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