Opinião

Quem fica a perder é o Porto

Quem fica a perder é o Porto

Há quatro anos, apoiei a candidatura de Rui Moreira a presidente da Câmara do Porto. Integrei mesmo, com gosto e convicção, a lista à Assembleia Municipal do movimento independente - O meu partido é o Porto - encabeçada por Daniel Bessa, facto de que não me arrependo.

Hoje, continuo a apoiá-lo, porém, como é óbvio, nem Rui Moreira é perfeito e dono da verdade, nem quem o apoia, mormente se tem pensamento próprio, está certamente sempre de acordo com ele.

Entendo que o seu desempenho não está isento de críticas, apesar de o considerar globalmente muito positivo.

Assim sendo, e por maioria de razão, custa-me a compreender por que motivo os partidos ditos do arco da governação, no que respeita às próximas eleições, aos costumes autárquicos tenham optado por dizer nada ou quase nada.

O PP e o seu cada vez menos expressivo grupinho local, a quem nos bastidores e à boca pequena ouvi criticar o "estilo" do presidente e o seu entendimento perfeito com o PS, perdeu a grande oportunidade de se emancipar e mostrar o que vale nas urnas. Terá sido medo de não obter votos suficientes para eleger qualquer representante?

Fez mal, devia ter seguido o corajoso exemplo da sua líder nacional. Assim está condenado a ser cada vez mais irrelevante.

O PS, que, diga-se em abono da verdade, apenas através do esforço de coordenação leal e inteligente do vereador Manuel Pizarro tem conseguido cumprir o acordo pós-eleitoral firmado com o movimento independente, optou por silenciar os críticos e demitiu-se completamente da obrigação que se lhe impunha de ir a jogo, apresentar o seu próprio projeto para a cidade e sufragá-lo nas urnas.

Terá sido calculismo e querer ganhar na Secretaria o que antecipava não ganharia no sufrágio popular?

Fez mal, pois esperar exercer o poder sem sequer ter ido a votos é querer importar para o Porto uma "engenhoca" do tipo da "geringonça" que governa o país, mas de legitimidade ainda mais duvidosa.

O PSD desbaratou uma vez mais a oportunidade de se afirmar como alternativa, ao apresentar um candidato faz-de-conta, que politicamente vale zero e se vai deixar instrumentalizar pelo pior do que resta do PSD do Porto, como se viu na primeira entrevista em que se deu a conhecer e que o assassinou à nascença.

Terá sido a falta de liderança na condução do processo que não conseguiu impor um candidato à altura do desafio?

Fez mal porque o partido perdeu ainda mais credibilidade e a força que precisava para se reinventar.

Honra ao PCP que, corajoso e coerente, apostou forte ao escolher uma mulher para candidata e ademais com vasta experiência política.

Fez bem. Estou certa de que com engenho e arte e se não ceder à tentação de optar pelo populismo e demagogia fáceis do bota-abaixo porque sim, poderá almejar capitalizar a franja de descontentes, resultantes das opções erráticas quer do PSD quer do PS.

Bem sei que defrontar Rui Moreira seria um desafio difícil, que exigiria competência, coragem e muita ambição, tenho para mim que, por mérito próprio, o mesmo tinha à partida grandes hipóteses de ganhar a quem quer que se apresentasse. Agora, terem-lhe assim, por falta de comparência, estendido a passadeira vermelha e transformado a caminhada para a vitória num tranquilo passeio é tudo menos estimulante para o próprio e benéfico para a cidade.

Na noite das eleições e da celebração, da agora ainda mais do que previsível renovação da vitória do movimento independente, lá teremos uma vez mais todos os partidos a cantar vitória, mormente o PP e o PS, mas a quem a mesma de todo não pertencerá. Como diria Mário Soares "foram derrotados porque desistiram de lutar" e por falta de comparência, digo eu.

O pior é que, no final, quem mais vai perder é o Porto, ao ver o debate e reflexão sobre a cidade empobrecidos, porque limitado ao quase pensamento único do movimento independente, o que em democracia é sempre perigoso e redutor.

O único vencedor será, pois, e de facto, Rui Moreira, mas a sua folgada vitória não terá o brilho merecido. Ficaremos sempre sem saber qual o peso e o valor em votos daqueles que a ele se atrelaram, e é pena.

* GESTORA DE EMPRESAS