Opinião

Reflexão para férias

Reflexão para férias

"A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana, assim como as grandes atitudes imóveis das estátuas me ensinaram a apreciar os gestos. Em contrapartida, e posteriormente, a vida fez-me compreender os livros"

Yourcenar, Marguerite, in "Memórias de Adriano"

A época estival é, juntamente com o Natal, um período de balanço e reflexão. No caso do veraneio, esse balanço é feito muito à conta da literatura preparada para férias, e que inclui relatórios, livros de ficção, poesia e muitas vezes até a repetição de algumas obras...

A organizar a pequena biblioteca pessoal, dei conta do quanto seria útil emprestar algumas obras a alguns decisores e ilustres responsáveis da nossa praça. Assolou-me de imediato esta ideia, ao arquivar "O pêndulo de Foucault" e em que medida esta narrativa de Umberto Eco espelha a constituição do nosso atual Governo, assente num acordo tripartido de recurso. Também como cá, a obra literária previa três personagens que pouco tinham em comum, a não ser um gosto e interesse pelas conspirações e pelo poder supremo, de controlo da humanidade! O plano gizado por Belbo, Diotallevi e Casaubon nasceu igualmente do nada e foi ganhando corpo, por uma dinâmica interna desta narcisista troika de recurso e circunstancial, que se orientavam pelos próprios interesses e ia gerando aparentes sucessos espontâneos, embora irrealistas e sensacionalistas. Pena só ter um exemplar para emprestar nestas férias mas, assim sendo, opto pelo dr. António Costa na qualidade de "chefe" da nossa troika.

Vieira da Silva tem em Tolstoi o seu correspondente literário, e na obra "Guerra e paz", um espelho da sua atuação, numa matéria igualmente estruturante. Tal como na obra, o ministro cinge-se a ações desgarradas e sem fio condutor, agarrando-se de forma saudosista a um passado sem ideias para garantir solvabilidade do sistema social.

A lista mental foi bastante mais extensa, passando por Platão ("A República") para o ministro Eduardo Cabrita, Conrad ("O coração das trevas") para o ministro da Educação e Musil ("O homem sem qualidades") para o ministro das Finanças, por razões lógicas...

Termino esta "Reflexão de férias" recomendando a todos que não a conhecem, a obra referida na citação em epígrafe: "Memórias de Adriano", de Marguerite Yourcenar.

Considero o livro em causa uma das obras-primas da literatura e de leitura obrigatória para todos que se interessam pela problemática do "Poder" e do seu exercício. Leiam-no e compreenderão a justiça da minha recomendação.

Boas férias.

*DEPUTADA DO PSD