Opinião

Sentido de Estado

Numa sociedade em que a política se faz cada vez mais na voracidade do mediatismo, o sentido de Estado parece uma expressão passadista e bafienta. Mas não é. É antes um bem cada vez mais raro, e, como tal, mais precioso.

O dossier da PGR é disto um exemplo acabado. E Rui Rio demonstrou uma vez mais que é uma figura de Estado e que faz a diferença. Porque as tentações eram, de facto, grandes. Tinha uma de duas opções: ou punha-se em bicos de pés e fazia barulho publicamente em torno das eventuais opções, politizando ou mesmo partidarizando esta questão; ou procurava assumir uma postura que contribuísse para a tranquilidade e sobretudo para a confiança na investigação criminal do próximo sexénio.

Rio foi igual a si mesmo, optou pelo sentido de Estado.

É nestas ocasiões que se distinguem os que veem em todo o lado um momento de protagonismo com eventuais benefícios eleitorais e aqueles que cumprem mesmo o ditame de Francisco Sá Carneiro de que "Primeiro deve estar Portugal, depois o partido e só depois as circunstâncias pessoais de cada um". Se há um mal que Rui Rio tem é o de cumprir, com atos, aquilo com que outros apenas enchem discursos. A verticalidade na ação política e a coragem de transformar as palavras discursivas em atos políticos não está, como se vê, nem ao alcance nem sequer à compreensão de qualquer um.

Rui Rio abdicou de fazer desta questão uma questão política. Que o não é de facto.

Porque só pode considerar esta como uma questão política quem faça um pré-juízo de existência de um propósito de controlo da investigação criminal na indicação de quaisquer nomes. Quem presuma que a não recondução da PGR em funções implicaria que quem lhe sucedesse estaria condicionado partidariamente ou por amiguismo. Mas pior: seria considerar que toda a estrutura do MP em Portugal pode ficar limitada no seu dever e cerceada na sua liberdade de investigação; no fundo, aquilo que Manuel Carvalho designou como "uma menorização inaceitável do corpo do Ministério Público".

A posição do PSD foi, por isso, clara: favorável à recondução de Joana Marques Vidal, manifestando igualmente a sua não oposição caso a decisão conjunta de presidente e Governo fosse em sentido diverso; defendendo, nesse caso, a escolha de uma figura externa à hierarquia do MP.

Quem pensa que o PSD deve cavalgar as ondas da irresponsabilidade para conquistar o poder a qualquer preço, dá sinais claros que ainda não percecionou as características do seu líder, nem consegue perscrutar o que pensa o eleitorado. É por razões como esta que os eleitores estão cada vez mais distantes dos partidos políticos.

* ADVOGADO, MEMBRO DA COMISSÃO POLÍTICA NACIONAL DO PSD