Opinião

Será a Europa uma incubadora (involuntária) do terrorismo?

Será a Europa uma incubadora (involuntária) do terrorismo?

Os recentes acontecimentos perpetrados na Europa reforçam a necessidade de repensar o papel do Velho Continente em redor do Mediterrâneo. A ameaça crescente que nasce nas profundezas das metrópoles europeias, alimentada por voracidades coletivas travestidas de religiões e/ou culturas, apresenta-se invariavelmente com uma origem externa, à qual a Europa é alheia.

Se atentarmos a que, entre janeiro e outubro deste ano, 1,2 milhões de pessoas tentaram chegar ilegalmente à Europa (*) e que 72% das mortes registadas em migrações ocorreram no Mediterrâneo, não é de estranhar que os focos internos de latente instabilidade social gerada sejam imputados exclusivamente aos povos circunvizinhos. Se tal relação causa-efeito se afigura indesmentível sob todos os pontos de vista, talvez este contexto possibilite a promoção de um sério debate sobre incubação europeia de terrorismo (involuntária, claro está!...).

O móbil e a autoria dos atos propagados estão tão explicitamente relacionados com motivações religiosas, sobretudo ao serem reclamados por um tal "Estado Islâmico", que todos os povos seguidores do Islão se arriscam a ser automaticamente suspeitos aos olhos da opinião pública, só por cumprirem essa condição... Para além de injusto, pode ter um efeito pernicioso!

Importa, contudo, pontuar que os seus autores são maioritariamente de agregados dos subúrbios urbanos, tipicamente oriundos de famílias de nacionalidades e etnias minoritárias, mas que vivem na Europa desde há décadas, ou até mesmo gerações.

Assim, a Europa incuba guetos urbanos, inseridos em bairros onde a vigilância policial tem pouco efeito e a lei se extingue. A cumplicidade cultural destes "nichos" tribais, típicos das metrópoles, confere-lhes uma força coletiva - sob o manto de ideais religiosos - onde o efeito de dimensão pode rapidamente passar de uma preocupação social a um problema de soberania.

Olhar os riscos na (in)segurança interna europeia como uma consequência exclusiva de um povo, ou até mesmo de uma religião, afigura-se-me como uma míope abordagem leviana e com finalidade de "apurar" responsabilidades exclusivas em terceiros.

O branqueamento da irresponsabilidade de alguns grupos extremistas da região magrebina deve ser inequivocamente intolerado. Todavia, devemos ser autocríticos e realistas.

Definitivamente, os decisores devem aquilatar a geração interna de ambientes sociais propícios à criação de ódios civilizacionais e culturais, materializados em guetos (normalmente urbanos).

Por mim, digo não a todos os indutores de ameaças.

(*) Dados da Frontex. Em todo o ano de 2014, este número foi de 282 mil pessoas.

VEREADORA DA CÂMARA DA MAIA