Opinião

Tornar o combate ao VIH/sida de novo uma prioridade

Tornar o combate ao VIH/sida de novo uma prioridade

Nos últimos 35 anos, o investimento público na área da infeção VIH/sida em Portugal e no Mundo permitiu transformar uma doença fatal numa doença crónica de bom prognóstico.

Estes resultados foram obtidos através de medidas ambiciosas, como as políticas públicas de combate à toxicodependência, mas também no plano da gestão da doença foram feitos investimentos muito significativos em inovação terapêutica que permitiram manter vivas as pessoas que vivem com VIH, oferecendo uma esperança de vida alargada aos novos doentes.

Apesar destes esforços, Portugal ainda regista uma das mais elevadas taxas de incidência, com cerca de 841 novos casos notificados em 2016 (8,1 casos por 100 mil habitantes), o que compara com taxas de 6,3 por 100 mil habitantes no espaço europeu.

Estes factos revelam que existe um caminho ainda por traçar no combate a esta epidemia, que possa permitir a Portugal atingir as metas com que se comprometeu com a Organização Mundial de Saúde no sentido de ter, em 2020, 90% das pessoas que vivem com VIH diagnosticadas, 90% destas em tratamento e 90% dos doentes tratados em supressão virológica.

Pelo seu trabalho de proximidade, várias foram as entidades que contribuíram para oferecer a quem vive com o VIH e seus familiares uma melhor qualidade de vida. Nestes 25 anos, a Fundação Portuguesa "A comunidade contra a sida" tem contribuído para chegar junto daqueles que o sistema de saúde não chega, seja pela sua condição de vida, seja pelo estigma e discriminações a que estão sujeitos.

O anúncio de uma redução de mais de 35% no valor distribuído aos hospitais para o acompanhamento (consultas e exames) e tratamento (terapêutica antirretroviral) dos doentes põe em causa, de forma inexplicável, a liberdade de prescrição do médico, a efetividade do tratamento pela limitação de utilização das mais efetivas soluções terapêuticas em todos os hospitais nacionais, introduzindo iniquidades e assimetrias regionais incompreensíveis.

Em última análise, as medidas recentemente anunciadas pela Administração Central do Sistema de Saúde, como alertamos nas VII Jornadas ético jurídicas da Fundação que decorreram no Porto, colocarão em causa o cumprimento das metas da OMS (90/90/90), deitando por terra o esforço titânico que as últimas gerações de profissionais de saúde despenderam na gestão destes doentes, hipotecando a esperança na gestão efetiva da sua doença.

PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO PORTUGUESA "A COMUNIDADE CONTRA A SIDA"

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