Opinião

Traição ao Douro (II)

Traição ao Douro (II)

A propósito da XXIX Cimeira Luso-Espanhola que firmou como epicentro o Douro e a (minha) cidade de Vila Real, tivemos oportunidade de ver, ler e ouvir os mais variados comentários e opiniões. Convém sublinhar que é a primeira vez que se coloca a cooperação transfronteiriça no topo da agenda de uma cimeira ibérica, congregando uma vontade comum de fazer incidir sobre esses territórios um olhar mobilizador para as suas oportunidades, assim como um nível mais elevado de apoios europeus.

No entanto, confesso o meu espanto ao ler o artigo de opinião do deputado Luís Ramos que viu luz mediática neste nosso JN. Nele, o autor acusa o Governo de ter traído o Douro por não incluir o desenvolvimento da Linha do Douro nas conclusões da dita cimeira.

Certamente não serei a pessoa mais indicada para o fazer, mas convém lembrar que as cimeiras, todas as cimeiras, têm uma agenda consensual trabalhada entre as representações diplomáticas de ambos os países ao longo dos meses que as antecedem.

Ao que sei, nunca esteve prevista a discussão sobre a extensão da Linha do Douro. E porquê? Por duas razões principais. A primeira é a que se prende com o plano de investimentos pós-2020, que terá de ser discutido e depois aprovado pelo Parlamento por dois terços dos votos. Como se sabe, não existe (ainda) plano e por essa razão essa discussão ainda não aconteceu. Será que o deputado Luís Ramos estará em condições de vincular, desde já, o PSD sobre o assunto e, por consequência, os 473 milhões de euros que são necessários para este desiderato que ultrapassa o horizonte de 2020?

A segunda é a que se prende com a disponibilidade espanhola. Talvez não saiba o ilustre parlamentar, mas as infraestruturas de transportes em Espanha observam um planeamento conjunto, Governo central e Governo da região. Ora, nesta cimeira não esteve presente a região que convive, do lado espanhol, com o nosso Douro, nem a mesma foi consultada sobre essas hipotéticas opções futuras. Bem sei que é um pormenor, mas como observou o embaixador Seixas da Costa, as realidades institucionais que, de ambos os lados da fronteira, enquadram os modelos transfronteiriços são muito assimétricas: de um lado estão autonomias, democraticamente fortes, com estruturas poderosas e testadas. Do lado de cá, à falta de regionalização, temos apenas as CCDR e municípios, associados ou não.

E a propósito do Douro, não posso deixar de recomendar algum pudor ao deputado Luís Ramos. Pois quem acabou com a Casa do Douro de forma atabalhoada sem ter encontrado uma solução para pagar os milhares de euros aos funcionários; quem atrasou sempre a eletrificação da Linha do Douro até à Régua negando a opção nacional desta via; quem pôs a A24 como autoestrada mais cara do país; quem encerrou tribunais em concelhos da Região Demarcada do Douro, não estará, certamente, numa posição muito cómoda para usar a palavra traição.

Pelo nosso lado, estamos a resolver os problemas do Douro. Com cuidado e ponderação. Porque palavra dada é palavra honrada!

E já agora, alguém se lembra de ver ou ler uma nota crítica do deputado Luís Ramos quando aconteceu a Cimeira Ibérica em Vidago, no dia 4 junho de 2014? É que um dos temas desse encontro bilateral também foi cooperação transfronteiriça...

* COORDENADOR DOS DEPUTADOS DO PS - VILA REAL

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