Opinião

Lisboa come tudo, tudo…

Lisboa come tudo, tudo…

Desde miúdo, ouço a máxima de que Portugal é Lisboa e o resto é paisagem, o que me recuso e recusarei a aceitar. Até porque não é assim, de forma alguma, nem pensar!

Mas, a verdade é que às vezes o comportamento de quem decide vai nesse sentido, ignorando por completo o que se passa fora da capital, como recentemente aconteceu no apoio da Direção-Geral das Artes, na área das artes visuais, em que a Área Metropolitana do Porto e o Norte foram completamente ignorados, prejudicando, naturalmente, todo o esforço que se tem vindo a fazer, contemplando apenas a Área Metropolitana de Lisboa. Ou seja, 550 mil euros foram direitinhos para três entidades dessa região; o resto ficou a ver navios, nada, mesmo nada!...

Lamento, profundamente, que a mais antiga bienal do país, a de Vila Nova de Cerveira, e a mais recente, Bienal Internacional de Arte de Gaia, não tenham sido beneficiadas, apesar de os seus projetos terem sido considerados elegíveis pelo júri. Mas, a realidade é nua e crua. Nada! Nenhuns euros foram destinados ao Norte; Lisboa "comeu" tudo, tudo....

No caso da Bienal Internacional de Arte de Gaia / Bienal de Causas que, ao que tudo indica, até ficou bem classificada no projeto de candidatura, mas ausente nos apoios, por "falta de financiamento disponível", este não recebimento do apoio estatal é inadmissível, até porque, além de hoje já ser considerada a maior bienal do país, quer a nível de participação de obras, quer de artistas e de polos, a Bienal, ela própria, participa e dá o exemplo na descentralização e organiza, além de Vila Nova de Gaia, polos em oito municípios, como aconteceu ainda este ano. Mas, o poder, os senhores do júri parecem ignorar esta atividade que, como se deve perceber, representa um esforço enorme, na organização de um evento desta natureza, e se não tivesse o apoio da Câmara Municipal de Gaia e o empenhamento do seu presidente, Eduardo Vítor Rodrigues, não poderia continuar.

Confesso que ficamos desiludidos, mas não será este "esquecimento estatal" que nos impedirá de prosseguir o nosso objetivo de transformarmos "Gaia na cidade das artes" e de contribuirmos para a reafirmação da atividade dos artistas plásticos da Área Metropolitana do Porto e do Norte, no contexto nacional e internacional.

A arte não existe, não se faz, não acontece apenas em Lisboa, e Vila Nova de Gaia, a Área Metropolitana do Porto e a Região Norte já deram - e continuam a dar - provas disso. Não há maior cego do que aquele que não quer ver, mas, enfim, as injustiças parecem continuar a querer acontecer.

*Jornalista/Pintor. Diretor da Bienal Internacional de Arte de Gaia

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