Opinião

Mala praxis, sed praxis?

Mala praxis, sed praxis?

O Parlamento discutiu ontem uma proposta do Bloco de Esquerda sobre praxes académicas. Na sequência da apresentação desta iniciativa, ouviu-se um coro de comentários agressivos e insultos. Recupero criticamente alguns destes "argumentos".

1. "O Bloco quer proibir as praxes e isso é uma posição autoritária". O Bloco não quer proibir as praxes. A questão é combater uma sociedade desigual, onde a subordinação é a regra e a estratificação é a ordem natural das coisas. A praxe é a expressão dessa sociedade no contexto da universidade. O que se propõe é a criação de mecanismos concretos como, por exemplo, um gabinete de apoio aos alunos vítimas de violência ou uma linha verde para a denúncia dos mesmos casos. Quem for contra isto, esconde alguma coisa.

2. "Sou contra as praxes violentas, mas a praxe serve para integrar". A ideia de que existe uma praxe boa é puro voluntarismo sem efeitos práticos. A praxe representa hoje um mecanismo distorcido de integração a partir da exclusão. E a sua hegemonia alimenta-se do silêncio cúmplice e da ausência deliberada de alternativas.

3. "A praxe é voluntária e só vai quem quer". Entre o forte e o fraco, é a liberdade que oprime e a lei que liberta. Curiosamente, as faculdades em que a praxe tem mais peso são também aquelas nas quais os que ficam de fora são sempre mais reprimidos. Quando falamos em receção estamos a dirigir-nos para todos os estudantes sem exceção. Ou não será assim?

4. "Na minha faculdade a praxe é boa, na do lado é que é horrível". Uma das estratégias de desculpabilização da violência é passar as culpas para o vizinho. Esse comportamento só desculpabiliza o abuso. Quem admite, para si, a responsabilidade de denunciar a violência, não se pode calar perante a praxe.

5. "O Conselho de Praxe estipula as regras, não vale tudo". Os acontecimentos trágicos recentes, ocorridos em contexto de praxe, mostram que a violência, física ou simbólica, continua a ser a regra. Se o Conselho de Praxe estipula as regras e merece o respeito de todos, por que razão os seus membros têm receio de adquirir coletivamente personalidade jurídica?

Ao longo dos anos, à medida que a praxe ia construindo uma hegemonia no meio académico, a discussão sobre a democracia e os modelos de integração esvaziou-se. Esta lógica deve ser combatida. E combater não significa proibir. O que não vale é ficar a meio do caminho.

DEPUTADO DO BLOCO DE ESQUERDA