Opinião

Metade é o que é e metade é o que parece

Metade é o que é e metade é o que parece

Portugal está na moda e anda à procura da razão desse sucesso. Vivemos ventos favoráveis com consequências, muitas delas não planeadas, que nos têm estado a correr bem - um momento alto de um ciclo muito positivo.

A segurança do país, a luz de Lisboa, o charme do Porto, o encanto do interior ou os paraísos das ilhas, já cá estavam. A razão deve ser procurada na relação entre o que temos versus o que valemos, ou seja, a qualidade intrínseca e a qualidade percebida, também conhecida por "marca".

O alerta foi lançado pelo mais conhecido marketeer português: "O momento é de orgulho, mas não o estamos a conseguir monetizar e transformar em riqueza para os portugueses". Carlos Coelho, também presidente da Ivity Brand Corp, numa das mais recentes entrevistas, justificou este défice pela vergonha em valorizar o que temos e que se espelha "num enorme constrangimento em marcar preços".

Por exemplo: se o azeite português é considerado o melhor do Mundo, por que motivo os traders que o compram a granel o colocam no mercado com rótulos espanhóis e italianos, ao dobro ou ao triplo do preço a que é vendido em Portugal? A razão é simples: a qualidade intrínseca do nosso azeite não é suficiente, pois metade da qualidade de um produto tem a ver com a qualidade percebida.

Ninguém determina a procura por uma marca, mas ela pode ser influenciada. Os consumidores têm expectativas de novas experiências e são essas perceções que lhe determinam o valor. Eles esperam mais do que qualidade real, querem personalidade com autenticidade e empatia. Se a qualidade percebida é alta, a empresa pratica preços mais altos e faz mais investimentos, gerando mais ganhos para os seus acionistas.

Mas, voltamos ao mesmo: se o país está na moda, será que os portugueses também estão na moda e lucram com isso? Portugal está com uma notoriedade acrescida, com valor percecionado muito diferente, só que claramente insuficiente. É urgente aumentar os salários, especialmente o salário mínimo.

É um momento de orgulho. É tudo extraordinário, sente-se o embrião de mudança, mas ela tem de ser mais rápida e menos envergonhada. Os portugueses também têm o direito de estar na moda e não serem reduzidos ao triste domínio do possível.

DIRETORA FAC. CIÊNCIAS SOCIAIS E EMPRESARIAIS, DA UNIVERSIDADE EUROPEIA