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Opinião

Na verdade, eles mentem                 

Na verdade, eles mentem                 

Raquel Varela disse na RTP que o confinamento de março não serviu para controlar o vírus e que a eficácia dos confinamentos não tem "base científica".

Porque não aceitamos a desinformação na televisão pública, impõe-se uma correção: vários estudos evidenciam a redução do número de pessoas que adquirem o vírus após medidas de confinamento. Podemos discutir o momento da sua aplicação, ou se este deve ser parcial ou generalizado, a magnitude do efeito, o custo-benefício, mas não a eficácia na redução do número de contágios. Se reduzirmos contactos sociais, reduzimos contágios.

A liberdade de questionar políticas públicas e a evidência científica que as fundamenta é inegociável. Para defender o interesse comum, é preciso debater as diferentes abordagens para lidar com a pandemia. Numa situação de emergência, é mesmo fundamental que as autoridades de saúde conheçam as visões divergentes que lhes chegam de outras áreas da sociedade. Quem observa de várias perspetivas, vê seguramente melhor.

Contudo, o debate público tem sido contaminado por uma horda de "médicos", "académicos", "jornalistas" e "comentadores" pela "verdade" que insinuam que estamos a ser enganados. Retiram do contexto, invocam bases científicas que não existem, misturam conceitos e deturpam artigos para justificar as suas crenças. Não contribuem para o debate e apenas ajudam a adensar a incompreensão das medidas necessárias para evitar que morram pessoas para quem existe tratamento.

Semear a dúvida com falta de conhecimento não ajuda ninguém. E, pior que tudo, prejudica-nos a todos.

*Psiquiatra e professor da Univ. do Minho

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