Opinião

O ensino da História…mete medo a quem?

O ensino da História…mete medo a quem?

Está a causar grande inquietação nos meios educativos, pelo menos nos mais zelosos e esclarecidos, a surpreendente diminuição da carga letiva no ensino da História em muitas escolas, em consequência da aplicação da chamada lei da Autonomia e Flexibilidade Curricular, que abre caminho a uma desregrada alteração no peso de disciplinas consideradas estruturantes, na base de critérios claramente desajustados.

É o caso flagrante da disciplina de História. A sua perda de importância, agora lecionada "a correr" pelos escassos professores que o novo sistema ainda comporta, terá consequências negativas na formação das novas gerações. Há valores, identidades, memórias, bem como o desenvolvimento do espírito crítico dos adultos de amanhã, que se perdem. A resposta ao que o hoje é estará sempre no que o ontem foi e como foi, porque nada começa agora, e o agora é a continuação do ontem, e o ontem é já um esboço do amanhã.

Sem a História não se pode compreender o Mundo em que vivemos. Com ela nos habituamos a "descobrir a relatividade das coisas, das ideias, das crenças e das doutrinas, e a debater por que razão, sob aparências diferentes, se repetem situações análogas e se reproduz a busca de situações passadas", assim diz Mattoso.

Não se entende, pois, o propósito de quem a procura "varrer" das escolas. Tal como não se entende esse lavar de mãos do Ministério da Educação, indiferente às recomendações da Conferência Permanente dos Ministros Europeus da Educação (1997), que defende a importância fundamental do ensino da História, quer na aprendizagem da herança histórica, quer na educação dos jovens para a cidadania democrática.

Que cidadãos queremos formar, afinal? Cidadãos sem memória?

*Escritor e jornalista