Opinião

O eterno problema das vagas em Medicina

O eterno problema das vagas em Medicina

Após o anúncio feito pelo ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do aumento de vagas em Medicina no próximo ano letivo, e consequente rejeição pelas Escolas Médicas por razões que qualquer estudante de Medicina pode atestar - excesso de alunos nos hospitais, poucas condições nas faculdades, edifícios de aulas decrépitos, entre muitas outras -, muita tinta tem corrido sobre as consequências políticas e sociais desta decisão.

De todas as ideias que têm sido avançadas, há uma que parece central - mais alunos de Medicina significa mais médicos especialistas. Contudo, esta ideia é profundamente errada. Mais alunos de Medicina não significam mais médicos especialistas! Podemos ter cem mil alunos a estudar Medicina sem que isso resulte em mais médicos para responder às necessidades da população. Isto porque as vagas para a especialidade são limitadas ao nível da formação pós-graduada, após os alunos terem saído das faculdades.

No ano passado mais de mil alunos ficaram de fora do acesso à especialidade. Aliás, neste momento, há mais de 3500 médicos indiferenciados. Ora, os concursos que abrem para médicos especialistas nunca vão poder ser preenchidos por médicos indiferenciados. Não tem cardiologista? Pois, não é por aumentar o número de alunos de Medicina que o vai ter. Não tem médico de família? Igual. Ou oftalmologista, pediatra, cirurgião, ou qualquer outra especialidade.

O que vai ter é, certamente, médicos com pouca formação, pouco experiência e com muitas limitações no exercício da profissão. Resolver por quantidade um problema que é de qualidade é como adicionar pisos a uma casa sem alicerces - eventualmente ruirá, pelo que resta rezar para que não seja quando estamos lá dentro.

* Presidente da Associação Nacional de Estudantes de Medicina

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