Opinião

O exemplo inspirador da Galiza

O exemplo inspirador da Galiza

A Galiza celebra os 40 anos do seu estatuto autonómico regional. Estas décadas de autodeterminação governativa da região irmã do Norte de Portugal fizeram uma história feliz de desenvolvimento e prosperidade, que merece olhar atento.

Há lições inspiradoras a retirar da experiência galega.

Enquanto o Norte de Portugal falhou uma trajetória de convergência de produção de riqueza com a União Europeia, permanecendo desde a adesão aquém dos 75% do PIB per capita médio comunitário, a Galiza superou francamente essa barreira, projetando-se como uma "região desenvolvida". Se a nossa vizinha se situa já no patamar dos 82% da média da riqueza comunitária, o Norte fica-se ainda pela casa dos 65%.

O PIB por habitante galego, em 2018, é superior a 23 mil euros, o que compara com os 17 mil do lado do Norte. No plano dos níveis de formação da população, a Galiza confirma o salto dado: 38% da população entre os 25 e os 64 anos detém ensino superior, enquanto no Norte essa percentagem é ainda de 23%. Os galegos também têm uma esperança de vida maior que nortenhos e portugueses.

Diferenças tão significativas não são acidentais, sobretudo se lembrarmos que os pontos de partida, aquando da adesão à então CEE, eram semelhantes, senão mesmo mais esperançosos ao Norte, quer pela dimensão demográfica, quer pelo perfil industrial preexistente.

A autonomia galega não garantiu apenas a afirmação política e cultural a uma comunidade, mas permitiu também a adoção de instrumentos mais poderosos e eficazes de desenvolvimento: das estratégias próprias de crescimento à governação autónoma, da voz dentro e fora de Espanha à capacidade de financiamento e gestão de investimentos, infraestruturas e projetos.

Se o Norte tem sido historicamente condicionado pela drenagem dos excedentes da sua balança comercial para a deficitária economia nacional, pela suborçamentação dos fundos da Política de Coesão ou pela aplicação de spillovers, com efeitos negativos no investimento e emprego regionais, já a Galiza parece ter espantado esses embaraços. Criou empresas e marcas à escala global e ultrapassou o destino de pobreza do "Pranto matricial que cobre a terra e o mar", no poema de Paz-Andrade.

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A história da Galiza interceta com a do Norte a tal ponto que os nossos laços culturais e sociais são indestrinçáveis. O fio do tempo é comum - da pré-história ao período celta, da civilização castreja à Galécia romana, da cristianização à formação dos reinos... e à "primeira tarde portuguesa" (José Mattoso).

Oxalá o nosso encontro com o futuro seja também uma jornada mais partilhada.

*Presidente da CCDR-N

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