Opinião

O fantasma do assediador Thorstein Veblen

O fantasma do assediador Thorstein Veblen

Um colega meu contou-me há dias uma anedota apócrifa sobre um dos economistas mais famosos pela genialidade mas também por assediar colegas, alunas e funcionárias - Thorstein Veblen.

Depois de uma multidão de processos disciplinares - onde além dos assédios estavam agressões físicas também a colegas masculinos e a alunos - Veblen entrou na sala de aula, sentou-se, ficou calado. Os alunos entraram, sentaram-se. Alguns entravam saudando, boa-tarde. E ele, mudo. Esfíngico. Aos poucos, a surpresa na turma deu lugar à curiosidade e a curiosidade originou algo de pavor. Aos poucos, um ou outro dos alunos percebeu que Veblen não falaria naquela aula e foi saindo. Os outros ficaram. A aula terminou. Veblen levantou-se e foi embora perante o olhar dos estudantes. No final, foi ao livro de ponto e sumariou "Hoje não assediei ninguém".

Esta anedota mostra o limite ténue que acontece entre a palavra dita e a palavra recebida. Num período em que todos ficámos muito mais exigentes perante o assédio nas instituições - seja o sexual, seja o moral, seja o de outro tipo qualquer - as mesmas instituições necessitam de refletir nas práticas esperadas por todos os que nelas trabalham ou por todos os que por elas passam.

Se a tipologia jurídica e sociológica pode ajudar na delimitação entre situações, por outra via a recorrência de alguns casos - estranhamente silenciados enquanto outros estranhamente expostos - levanta exigências de outra ordem. Há miúdos que nunca sabem brincar com os outros sem os aleijar assim como há quem nunca escolha as palavras certas, os olhares adequados ou os silêncios exigidos. Aquilo que teve graça para uma turma pode ser indigesto para a turma a seguir.

Obviamente, para não cairmos na tentação de Veblen, todos temos à partida bom senso. Somos seres percetivos, isto é, percebemos que atingimos os outros. Percebemos que aquela mensagem perante aquele público ou perante aquela pessoa foi ou não foi adequada. Não o perceber tanto pode ser estupidez, como desatenção crónica, arrogância ou insensibilidade. Agravadas se repetidas.

No entanto, também a rigidez de uma Academia de castas que não comunicam entre si sem medo ou só com pudor atrofiado poderá pôr em causa o projeto maior de qualquer Universidade - a de o cidadão que por ela passar, sentir que melhorou ao fazê-lo. Que ficou marcado pela positiva e pela diferença. Mas jamais pelo trauma.

*Professor da Universidade do Minho

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