Opinião

O interior não pode ser só uma bandeira

O interior não pode ser só uma bandeira

Foi em Bragança que Marcelo Rebelo de Sousa, num dos seus mais arrebatadores jogos de retórica, deixou dito que "dentro do interior profundo há o interior mais profundo e é no interior mais profundo do interior profundo que encontramos Trás-os-Montes". Podia ter sido esta uma boa sugestão para que António Costa fosse, justamente, a Bragança buscar a novel secretária de Estado para a Valorização do Interior, Isabel Ferreira.

Mas não foi, certamente. De resto, António Costa foi ao distrito de Bragança buscar não apenas um mas ainda outros três secretários de Estado (Berta Nunes, Antero Luís e Sobrinho Teixeira), um "agrado" de fazer inveja ao distrito vizinho de Vila Real de onde não saiu um só nome para a governação.

Assim, está bem de ver como o chefe do Governo não ignorou o perfil verdadeiramente singular, como símbolo da "valorização do interior", de Isabel Ferreira, considerada uma das cientistas de maior projeção mundial, como provam os rankings que contabilizam a produção científica mais citada internacionalmente.

Quando podia trabalhar em qualquer universidade do Mundo, optou por Bragança, onde fundou e dirige o renomado Centro de Investigação da Montanha, que obteve a classificação máxima na avaliação internacional dos centros de investigação portugueses, demonstrando como Trás-os-Montes, embora longe da capital, está afinal paredes-meias com o Mundo!

Resta agora, perante falhanço absoluto que têm sido as políticas de valorização do interior (a começar pelas deprimentes "Unidades de Missão" que nada conseguiram), ver se o interior é, finalmente, assumido sem hesitações como prioridade central do Estado para o desenvolvimento económico do país e da coesão territorial. O interior não pode ser só uma bandeira.

*Escritor e jornalista