O Jogo ao Vivo

Ponto de vista

O medo e a confiança

Todos nós sabemos que o homem, ao longo de toda a sua existência, teve de saber viver com vários ciclos de pandemias. Foi assim com a peste, na Idade Média, e, em 1919, com a última gripe espanhola.

De todas essas crises o homem viveu com medo, mas soube encontrar a confiança necessária para um novo tempo. Foi o Renascimento ou o Mundo que saiu da II Guerra Mundial que permitiu ultrapassar esse momento de incerteza.

Divididos entre o medo e essa incerteza, estamos, hoje, à procura de um "novo normal". Um regressar à vida onde se consiga vencer o medo que as elites dirigentes não souberam gerir neste Mundo globalizado.

Como dizia, e bem, António Guterres, muitas vezes onde está a capacidade de liderança não estava a iniciativa do poder.

Este Mundo que não pode continuar a ser de competição, mas antes de interdependência, tem de dar sinais de confiança a todos os habitantes deste planeta.

Desde logo, ter um olhar crítico para os líderes populistas que estão a falhar no seu encontro com a realidade social e política.

Depois, acreditar que temos de melhorar o nosso regresso à normalidade e aprender com as lições desta crise sanitária e económica.

Será bom perceber que as alterações climáticas precisam de uma nova abordagem. As cidades precisam de uma outra organização. As empresas vão ter de saber valorizar o trabalho digital. Os cidadãos vão ter de saber apreciar os seus tempos livres e o convívio com as famílias.

Daqui para a frente, vamos ter de compreender que precisamos de olhar de uma outra forma para a saúde. Vamos ter de trazer a saúde para a economia, de modo a compreender-se que determinados comportamentos na vida acabam por ser nocivos para o desenvolvimento humano.

Um exemplo, que merece a nossa reflexão, são os Estados Unidos. A maior potência mundial tem 35 milhões de desempregados e dos mortos provocados pela covid-19, 94% tinham outras doenças associadas. As chamadas doenças da civilização: cancro, hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares.

Esta crise vai também no seu regresso ao "novo normal" potencializar uma nova Guerra Fria, agora entre os Estados Unidos e a China. A nova geopolítica e a nova geoestratégia da globalização do futuro vão ficar marcadas pelas atitudes das lideranças dos dois países.

Nesse entretanto, vale a pena pensar o que vai fazer a Europa para continuar a ser um espaço aberto ao Mundo? Qual será o posicionamento de Portugal no seu constante diálogo com o Mundo numa diáspora permanente da cultura e das suas gentes? Como vai ficar o Porto, nesta era pós-covid-19, a tentar compreender que a sua liberdade e a resiliência das suas gentes farão sempre a diferença com qualquer coronavírus? Uma conclusão parece ser óbvia: vamos devolver confiança às pessoas.

*Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto e professor universitário de Ciência Política