Opinião

O que está em jogo para Netanyahu, o Irão e os EUA

O que está em jogo para Netanyahu, o Irão e os EUA

No dia em que Israel celebra 73 anos (em 14 de maio de 1948 foi proclamado o estado israelita), o país está de novo à beira de um conflito em grande escala com os palestinianos.

A situação escalou na última semana aquando da marcha de um grupo de judeus ultranacionalistas para celebrar a captura da parte oriental da cidade de Jerusalém por Israel, em 1967. As autoridades impediram que a marcha atravessasse o bairro muçulmano da Cidade Velha, mas isso não acalmou os ânimos dos palestinianos. Tal levou à invasão da mesquita de al-Aqsa pelas forças israelitas, levando a confrontos entre os dois lados. E isto no fim do mês sagrado do Ramadão!

Independentemente do que suceder nos próximos dias, neste contexto devemos analisar consequências em três atores interligados: Benjamin Netanyahu, EUA e Irão.

Netanyahu, que tem tido dificuldades em formar governo e enfrenta acusações de corrupção, joga no conflito o seu futuro político. Tido como um falcão, o primeiro-ministro de Israel pode lucrar internamente com a escalada da situação, tendo nas questões securitárias um trunfo. Externamente, também retirará dividendos do conflito: este pode provocar danos ao reavivar das negociações com o Irão sobre a questão nuclear. Netanyahu tudo fará para impedir o êxito das renegociações.

Como patrocinador do Hamas, o Irão tem muito em jogo. Por um lado, o acordo nuclear pode encontrar novos obstáculos à sua renegociação e condicionar a atuação do Hamas; por outro lado, o Irão espera que as ligações entre vários países árabes e Israel sofram um revés.

A atual Administração dos EUA tem mostrado pouco interesse em envolver-se no conflito israelo-palestiniano. As perspetivas de negociações sérias são fracas: do lado de Israel há instabilidade política; do lado palestiniano, qualquer ação falhará devido à falta de liderança unida; e o crescimento dos colonatos na Cisjordânia nos últimos anos coloca em causa a viabilidade da criação do estado palestiniano. Os EUA têm encetado algumas manobras para reduzir o conflito atual, sabendo-se que há contactos de bastidores com israelitas e palestinianos. Porém, Joe Biden enfrenta um dilema. Sabe que os laços dos EUA com Israel são fortes, e já disse que Israel tem o direito a defender-se dos rockets do Hamas. Por outro lado, sabe que as imagens de destruição humana em Gaza têm impacto entre as elites liberais suas apoiantes, que consideram que o crescendo das tensões é, em parte, resultado das políticas falhadas pró-Israel do anterior presidente Donald Trump. Biden também sabe que o projeto de ressuscitar o acordo com o Irão pode ser severamente condicionado pelo conflito, mormente a nível interno: as forças republicanas mais conservadoras e tradicionalmente apoiantes de Israel tentarão fazer uma ligação entre Biden e o Irão, acusando-o de ceder e viabilizando a violência contra Israel. Assim, qualquer ação destes atores terá consequências para os outros dois, podendo condicionar as suas ações futuras.

Investigadora doutorada em Ciência Política e Relações Internacionais

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