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O trânsito no Porto e as obras do metro: confundir o problema com a solução

O trânsito no Porto e as obras do metro: confundir o problema com a solução

Está por inventar uma forma de interditar ruas e esventrar o subsolo de uma cidade sem perturbar o quotidiano dos citadinos. Quando falamos da construção de novas linhas de Metro, é disso que falamos: de túneis, viadutos, pontes, estações. Quanto mais densa a malha urbana e mais constrita a rede rodoviária, como é o caso do Porto, maior a perturbação. Em 2002, a chegada do Metro, que uma década antes o grosso da elite portuense reputava de aventureirismo, provocou análogo transtorno na vida dos portuenses. Escrevo análogo, em vez de igual, porque a intensidade do trânsito era então muito menor do que é nos nossos dias. Hoje, a taxa de congestionamento é de tal ordem que o Porto foi considerado a pior cidade da Europa em 2021, no índice de tráfego da TomTom. Já o tinha sido em 2020, antes do início da construção da linha Rosa... Um verdadeiro purgatório motorizado que põe tudo em causa, da saúde pública às metas atinentes à descarbonização. Diariamente, o nosso bem-estar esboroa-se nos engarrafamentos e na cacofonia dos automóveis e motociclos. Tentemos imaginar o panorama sem a atual rede de Metro.

A novas linhas avançam sujeitas às condicionantes externas que hoje afetam o setor da construção em geral. As obras de iniciativa camarária não são exceção, com vários concursos desertos e empreitadas dificultadas pelos custos das matérias-primas e escassez de mão-de-obra. Apesar de tudo, note-se como o hiato entre a aprovação do PRR e o início das obras do Metro foi curto, para o que é costume. A construção da linha Rosa arrancou a 29 de Março de 2021. Os atrasos têm de ser colocados em perspetiva. Não obstante as dificuldades, a data da conclusão mantém-se inalterada: 31 de Dezembro de 2024.

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Se o Governo não falhou ao Porto na hora de decidir investimentos - no Metro, como no "metrobus" para a Avenida da Boavista - não escamoteamos a sua indecisão quanto à VCI. O Governo está a protelar para além do razoável uma decisão sobre a isenção de portagens na CREP/A41, pedida há vários anos pelos autarcas da Área Metropolitana do Porto, como forma de retirar algum trânsito desta via rodoviária que começou por ser uma solução para se tornar uma parte do problema.

A Câmara também não pode ser ilibada da sua quota-parte de responsabilidades. Não existe um Plano de Mobilidade municipal digno desse nome. A gestão dos fluxos de tráfego deixa muito a desejar.

Mas não isentemos a responsabilidade individual. Uma parte dos portuenses que hoje circulam, solitariamente, ao volante da sua "bolha cinética" (na expressão de Peter Sloterdijk), fazem-no apesar de terem alternativas, que vão dos transportes públicos aos próprios pés. Administrem-se as curas e os curativos que o engenho e o dinheiro permitirem, mas sensibilizem-se as populações para novos hábitos de mobilidade.

Não há uma solução para o pandemónio do trânsito no Porto. Há soluções. As quais se colocam no plano nacional, metropolitano, municipal e individual. Da sua combinação sagaz é que poderá vir o alívio. Até lá, não confundamos o problema do trânsito com uma parte importante da solução - mesmo que, antes de o ser, esta possa acentuar temporariamente o problema.

Deputado à AR e membro da Assembleia Municipal do Porto (PS)

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