Opinião

O uivar dos lobos

Vivi boa parte da infância num velho solar de uma aldeia do Douro, a escassos metros das ruínas de um tenebroso palácio (chamavam-lhe o "Ratão"), com pessoas enterradas, onde à noite se viam luzes que diziam serem as almas dos defuntos lá sepultados. Mas não só: à volta, havia então um enorme pinhal, com o monte de S. Domingos no cume, onde se ouvia uivar os lobos.

Por uma e outra razão, as minhas noites eram quase sempre um interminável pesadelo. A escuridão na aldeia era total. Mal tocavam no campanário as "trindades" (que ainda sou desse tempo), trancavam-se portas e janelas e corria-se para o refúgio das lareiras, onde, para ajudar no tormento, as histórias que corriam falavam invariavelmente de bruxas, lobisomens e almas penadas.

Com serões assim, como conseguiria uma criança dormir? Para esconjurar os medos, não raramente dormia com um rádio de pilhas sob os cobertores, que sempre me dava a ilusão de estar acompanhado. Depois, era só erguer o som quando os lobos uivavam. Por fim, se acabava por adormecer, era tantas vezes embalado pelo seu uivar.

Os tempos passaram. Hoje já não se ouvem uivar nos pinhais. Porém, o pesadelo do seu uivo ruidoso transferiu-se agora para os ecrãs de alguns canais da TV. A quem, como eu, é pouco dado ao consumo das telenovelas, o que resta, nos escassos instantes que sobram do serão, é o pesadelo dos intermináveis e repetitivos debates desportivos, onde sempre escapam os temas fundamentais do país e se impõe, em assuntos de lana-caprina, o clamor ruidoso de alguns "tribunos", por vezes aparentado com o uivo dos lobos ferozes da montanha. Mas, ainda assim - deixem-me dizê-lo -, sempre preferia continuar a ouvi-los uivar no monte de S. Domingos.

Escritor e jornalista

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