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Os TEIP: um outro olhar

Os TEIP: um outro olhar

O alegado distanciamento entre as escolas TEIP e as escolas não-TEIP, do ponto de vista dos resultados escolares dos seus alunos, é o motivo que explica a publicação, neste jornal, em 23. 07. 2021, do artigo de Vanessa Pereira, intitulado "Alunos de escolas em zonas carenciadas não estão a melhorar notas", um trabalho jornalístico inspirado nos resultados da tese de doutoramento de Hélder Ferraz, investigador da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto.

Apesar de estarmos perante um estudo cujos resultados são passíveis de ser contestados, não se pode concluir que as classificações dos alunos das escolas TEIP não estão a melhorar. O que Ferraz afirma é que não estão a melhorar tanto como os das outras escolas, baseando-se, apenas, nas classificações respeitantes ao Ensino Secundário, enquanto os estudos de Abrantes, Mauritti e Roldão (2011), do ISCTE, ou de Vitor Teodoro (2018), da NOVA.id.FCT, mostram, pelo contrário, que aqueles alunos ou têm vindo a obter melhores classificações ao longos dos anos ou, nalgumas disciplinas, a mantê-las, em todos os ciclos de escolaridade.

Trata-se de uma leitura que ignora quer a já referida melhoria dos resultados escolares dos TEIP, quer os dados positivos que dizem respeito ao abandono, ao absentismo e à indisciplina dos alunos, quer, ainda, o sucesso dos alunos ao nível do Ensino Profissional, após a conclusão do 3º ciclo.

Se este é um problema do estudo de Hélder Ferraz, o outro tem a ver com o facto de seis agrupamentos TEIP relacionados com o Ensino Secundário (onde o investigador pretendeu estudar as razões do alegado insucesso do programa em questão), não lhe permitirem construir uma análise fundamentada do mesmo. É que o universo TEIP é um universo plural, onde podemos encontrar projetos centrados, sobretudo, em intervenções de natureza pedagógica assistencialista, mas, igualmente, projetos que, hoje, já são referências nacionais de inovação organizacional, curricular e pedagógica, como é o caso, por exemplo, dos Agrupamentos de Cristêlo (Paredes) ou de Marinha Grande Poente. Se não formos capazes de captar essa diversidade estaremos a desvalorizar e a penalizar o trabalho de todos aqueles e aquelas que, ao longo dos anos, têm vindo a construir e a aprender a construir respostas das quais, hoje, todos beneficiamos. É uma obra de gente anónima que, importa afirmá-lo, em voz alta, já não é o que foi ontem e que está aquém do que poderá ser amanhã. Gente cujo investimento não pode ser avaliado no curto prazo, já que se encontra a inverter um ciclo de exclusão que radica em modos de pensar e de agir que até há bem pouco não eram objeto de discussão. Com os agrupamentos TEIP começamos a compreender que não é inevitável que os pobres abandonem as escolas, antes do tempo, ou que estas não lhes possam ser úteis. Se há um longo e árduo caminho a fazer neste âmbito, importa reconhecer que esse caminho está a ser feito e que há evidências dessa mudança. Negá-lo é negar o esforço de tanta gente que merece que o seu trabalho seja objeto de análises capazes de compreender a complexidade do que está em jogo.

Consultoras de Escolas TEIP"S da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto

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