Opinião

Papiniano Carlos, poeta da resistência

Papiniano Carlos, poeta da resistência

Em 2018 comemoraram-se 100 anos do nascimento de Papiniano Carlos. Natural de Moçambique, foi um dos protagonistas da cena cultural do Porto. Aqui viveu parte da vida, antes de se mudar para Pedrouços, onde faleceu em 2012.

Diversos artigos ("Seara Nova", "Diagonal"...), a reedição do livro infantil "A viagem de Alexandra" (1989), exposições (Universidade Popular do Porto, Biblioteca da Maia) e evocações mantiveram viva a memória deste homem de bem, voz singular na nossa literatura para a infância, enquanto autor de um dos seus livros mais populares: o poema narrativo sobre o ciclo da água, "A menina gotinha de água" (1963), gravado em disco por Carmen Dolores e adaptado a filme por Alfredo Tropa. E vale a pena lembrar outros, como a homenagem ao engenho musical que é "Luisinho e as Andorinhas" (1977), dedicado a Lopes-Graça - que converteria em canção um poema escrito por Papiniano após o assassinato de Catarina Eufémia, em 1954.

Se nas ficções de "Terra com sede" (1946) e "Rio na treva" (1975), de cenário rural duriense, se leem também emotivas páginas sobre o Porto e a luta das suas gentes contra a pobreza, durante o fascismo, é sobretudo em "A rosa noturna" (crónicas, 1960) que a paisagem física e humana da Invicta surge recriada. Mas Papiniano foi ainda um poeta da resistência - em composições marcantes como "Caminhemos serenos" ou "Os ciclistas", incluídas hoje na súmula poética "A ave sobre a cidade" (1973). Estreado em 1942, com "Esboço", o poeta viu "Estrada nova" (1946) apreendido pela Polícia, o mesmo acontecendo com outros livros. Lutador pela liberdade, três vezes a PIDE o prendeu, pelo envolvimento em ações pela paz e da oposição, muitas da iniciativa do seu partido, o PCP.

Representante duma segunda geração neorrealista ligada aos fascículos de poesia "Notícias do Bloqueio" (1957-1962), que dirigiu com Egito Gonçalves, Veiga Leitão, Rebordão Navarro, Daniel Filipe, e ainda às tertúlias dos anos 40-60 no café Rialto ou na Associação dos Jornalistas, Papiniano quer como escritor quer como resistente foi justo merecedor da Medalha de Mérito da Cidade, Grau Ouro, aprovada por unanimidade pela Câmara do Porto no ano de 2009.

PROFESSOR COORDENADO DA ESCOLA SUPERIOR DE EDUCAÇÃO DO PORTO; CRÍTICO LITERÁRIO

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