Opinião

Para que servem os velhos?

Para que servem os velhos?

A pergunta que serve de título a este artigo é em si mesma problemática mas porque, tratando-se da velhice, pretende ser problematizadora numa época que tende a valorizar tudo e todos em termos pragmáticos.

Tradicionalmente, os velhos, detentores de práticas passadas e de um saber construído pela acumulação de experiências, eram reconhecidos, pela sua perspicácia e prudência, como alicerces da identidade e da estabilidade familiares. Asseguravam, também muitas vezes, o acompanhamento das crianças e, sobretudo as mulheres, cumpriam lides domésticas, tarefas em que a sua sabedoria, aliada a uma tranquilidade real ou pressuposta, se reconhecia como uma vantagem de que todos beneficiavam.

Porém, é igualmente verdade que, no passado, vivendo-se em média menos anos, nem sempre os velhos conviviam muito tempo com os seus familiares, designadamente com os netos. Mas ficavam em casa, disponíveis e tolerados dentro dos limites das suas possibilidades físicas e mentais.

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O que mudou então?

Desde logo, nos próprios programas de apoio aos mais velhos, estes deixaram de ser apelidados de "velhos" para serem antes designados por "idosos", "terceira idade" ou "seniores". Oculta-se, deste modo, a velhice nas formas de tratamento, pois ela não constitui mais um valor para as famílias e para a sociedade mas antes um patamar etário que, marcado por incapacidades, se torna sobretudo um encargo a exigir recursos financeiros e disponibilidades pessoais.

A população mais velha, em relação à juventude, é atualmente maioritária nas sociedades ocidentais, havendo tendência, numa cultura em que sobressai a importância das inovações e do progresso, para enaltecer estes valores e não tanto a experiência e o passado. A publicidade espelha bem esta realidade ao apresentar preferencialmente a sedução dos corpos e dos comportamentos jovens, inclusive quando se trata da promoção de campanhas e instituições dirigidas aos mais velhos para este efeito rejuvenescidos nas imagens apresentadas.

Chamar velho a uma pessoa, designadamente nas sociedades africanas tradicionais, em que predominam as crianças e os jovens, é um elogio e uma manifestação de respeito. Nas nossas comunidades, evita-se por constituir quase que um insulto. Daí dizer-se elogiosamente "estás jovem" e nunca "estás velho"!

*ISCET - Instituto Superior de Ciências Empresariais e do Turismo/Obs. da Solidão

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