Opinião

"Podia ser muitíssimo pior"...

"Podia ser muitíssimo pior"...

Foi assim que o ministro da Saúde se referiu ao atual estado da Saúde a propósito da recente publicação de um estudo do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE - IUL): "O Sistema de Saúde português no tempo da troika: A experiência dos médicos".

Há afirmações que ofendem.

De tão levianas, de tão irrefletidas e de tão desrespeitosas para com os doentes e os médicos.

Segundo o estudo, 60% dos médicos dos cuidados de saúde primários e 40% dos médicos hospitalares referem constrangimentos por falta de material.

Mas... "Podia ser muitíssimo pior".

47% dos oncologistas e mais de 50% dos urologistas referem pressões para não prescreverem terapêuticas inovadoras.

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Mas... "Podia ser muitíssimo pior".

Quase 80% dos médicos internos consideram que a formação piorou e mais de 70% dos orientadores referem já não disporem de tempo para formação.

Mas... "Podia ser muitíssimo pior".

Cerca de 60% dos inquiridos reconhecem que o abandono das terapêuticas aumentou nos últimos anos (85% na Medicina Geral e Familiar, 69% na Psiquiatria, 51% na Oncologia). 57,% referem que os doentes têm faltado mais às consultas.

Mas... "Podia ser muitíssimo pior".

Os níveis de desmotivação, insatisfação e as dificuldades económicas têm aumentado na classe médica, com situações dramáticas.

Mas... "Podia ser muitíssimo pior".

Mas não, não podia ser muitíssimo pior! Podíamos estar numa situação muitíssimo melhor! Não fossem as decisões inábeis e desajustadas do Ministério estarem a afetar toda a qualidade do sistema de saúde. Exige-se sempre mais dos mesmos! Mais esforços, mais mérito, mais sacrifícios, mais paciência, mais resiliência.

Mas quando se trata dos governantes, não existe a mesma exigência. Para esses, o "insuficiente" transforma-se milagrosamente num "muito bom".

As decisões que o Ministério tem tomado são desastrosas para a Saúde, para os doentes e para os profissionais. Todos os estudos independentes o têm comprovado. É indesmentível que o país tem hoje piores condições nos cuidados de saúde.

Faz parte da nossa cultura negar a fatalidade com o recurso a subterfúgios de otimismo. Perante a desgraça, achamos sempre que ainda temos muita sorte porque poderia ter corrido muito pior.

Vá... Este Ministério da Saúde não tem estado à altura das suas responsabilidades, mas "podia ser muitíssimo pior". Podia mesmo???

PRESID. SEC. REG. CENTRO ORDEM DOS MÉDICOS

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