Opinião

Resistir desistindo

Nos últimos meses, muito se tem falado da mais recente tendência no mundo laboral - "quiet quitting", expressão que se pode traduzir por "desistência silenciosa".

Tal tendência, que está associada a uma quebra significativa nos níveis de satisfação laboral no contexto de uma cultura global de excesso de trabalho, implica estabelecer limites e executar somente o trabalho que se tem de fazer e pelo qual se é pago, desistindo de se ir mais além.

O reconhecimento, cada vez mais generalizado, da essencialidade da saúde mental e da conciliação entre a vida profissional e a vida pessoal para o bem-estar do ser humano leva cada vez mais trabalhadores a desistir silenciosamente.

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Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho de janeiro de 2022, as mulheres, em especial as mais jovens, têm estado entre os grupos mais afetados pelo impacto da pandemia associada à covid-19 no mercado laboral mundial e, mesmo em períodos em que não há crise, o défice de trabalho decente é mais pronunciado entre as mulheres, que costumam receber uma remuneração inferior à dos homens pelo mesmo trabalho e com frequência suportam piores condições laborais que os seus colegas masculinos.

Considerando tais dados e a circunstância de a questão da conciliação entre a vida profissional e a vida pessoal se colocar com maior premência para as mulheres, é de prever que, num futuro próximo, a "desistência silenciosa" seja uma tendência maioritariamente feminina.

Ora, enquanto atitude individual, a "desistência silenciosa" deve ser encarada como um ato de resistência do trabalhador que, não podendo deixar de trabalhar, não pretende que o trabalho domine a sua vida.

Sendo que, ao desistir silenciosamente, o trabalhador está, desde logo, a libertar-se das consequências negativas para a sua saúde mental do facto de, em virtude da ideia de produtividade que domina o mundo laboral atual e da prática da comparação entre trabalhadores que, frequentemente, está ao serviço de tal ideia, se sentir em constante competição com os colegas.

*Secretária da Direção da Associação das Juízas Portuguesas

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