Opinião

S. Paulo disse mesmo isso?

S. Paulo disse mesmo isso?

Quando a uma frase se rouba o seu contexto, é muito fácil distorcê-la, ao ponto de até lhe dar o sentido contrário daquilo que pretende afirmar. Foi o que aconteceu com a badalada expressão da Carta de S. Paulo aos Efésios.

No tempo de Paulo, a mulher contava muito pouco, a ponto de ser considerada uma propriedade que passava de um dono (o pai) para outro (o marido). Ora, é a pessoas geradas nesta cultura que o apóstolo escreve. E não o faz apenas a respeito da relação entre marido e mulher (5,22-33), mas também da relação de filhos e pais (6,1-4) e dos senhores com os seus escravos e vice-versa (6,5-9).

Paulo recorda aos Efésios que todos estes relacionamentos ganharam uma nova e revolucionária dimensão à luz da fé em Cristo. O batismo rompe todos estes estereótipos culturais e introduz o crente numa nova forma de viver, resumida nas palavras que abriam, precisamente, a leitura que tanto brado deu: "Submetei-vos uns aos outros no temor a Cristo" (5,21). A fé em Cristo constrói uma nova cultura, a do amor, que leva a subjugar-se e não a subjugar: todos se devem submeter ao e no amor. Mas Paulo é explícito: todos e não apenas alguns; na vida cristã e na matrimonial não há lugar para subjugadores! Por isso, depois de falar do submeter-se no amor das mulheres em relação aos maridos, Paulo fala do submeter-se no amor dos maridos em relação às mulheres: "Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela" (5,25). Ou seja, dando a vida por elas, como Cristo pela Igreja!

Que revolucionário foi Paulo - na senda de Jesus - ao afirmar tal coisa numa cultura em que os judeus mais ortodoxos rezavam: "Obrigado, Senhor, por não me teres feito mulher". E por isso, o apóstolo termina com uma frase dos Génesis que proclama a igualdade do marido e da mulher: "Por isso, o homem deixará o pai e a mãe, unir-se-á à sua mulher e serão os dois uma só carne" (5,31; cf. Gn 2,24). Ou seja, não há lugar para duas personalidades que se impõem ou subjugam, mas para um único projeto de vida, que, pelo amor recíproco, faz com que os dois se tornem um só.

*Presidente da Associação Bíblica Portuguesa

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