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Sobre a Lei de Ocam e o Antropoceno

Sobre a Lei de Ocam e o Antropoceno

Há dias, fui tomar um café. Uma cliente, num balcão perpendicular, para facilitar os respetivos trocos, pegou numa moeda de 10 cêntimos e deixou-a escorregar entre os dedos. A moeda, nesse movimento sucedâneo, caiu numa das ranhuras do balcão expositor e foi depositar-se sobre um bolo. A senhora ficou envergonhada e quando a empregada notou disponibilizou-se para pagar o bolo inutilizado.

A empregada disse que não era necessário. Como observador discreto, fiz de conta que não me apercebi deste episódio muito interessante. Qual a probabilidade de o mesmo acontecer? Baixa, baixíssima. Qual a probabilidade de uma moeda de dez cêntimos de euro cair numa queijada de nata? Baixa, baixíssima. Mas o episódio mostra diversos elementos que para um economista associam necessariamente "mão humana" a esta probabilidade baixíssima. Primeiro, porque dez cêntimos de euro, enquanto moeda, tendem a ser movidos, fisicamente, por seres humanos. Segundo, porque o que acontece a queijadas de nata - desde a produção, passando pela distribuição e chegando ao consumo - tende a ter "mão humana". Terceiro, a reunião destes universos paralelos - movimento físico de uma moeda de dez cêntimos a aposição numa queijada de nata - tende a só quase ser possível por ação humana, direta ou indireta. Guilherme de Ocam sugerido pelo monge Baskerville (imortalizado por Sean Connery na famosa versão cinematográfica), em "O Nome da Rosa", sabia isso e por isso, raramente invocava o Nome de Deus ou a Natureza/Sorte, quando havia mão humana no que de bom ou menos bom acontecia.

Quando discutimos atualmente o Antropoceno, discutimos que vivemos num período em que são raros os fenómenos da atualidade - social, económica, climatérica - que não têm "dedo humano", por mais raros que sejam. Sejam eles vírus, guerras, ou moedas de dez cêntimos com movimentos irregulares.

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Professor da Universidade do Minho

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