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Tabaco: Eu reduzo, tu reduzes? Eles não reduzem?

Tabaco: Eu reduzo, tu reduzes? Eles não reduzem?

Comunicar saúde pública tem um lado bom e mau. O bom: informar as pessoas que não acedem a informação científica para ganhos em saúde, porque não se comunica ciência em Portugal, metodologia KISS, como apela Freeman Dyson em "The dream of scientific brotherhood", alertou-me Mariano Gago.

O mau: os anticorpos que nascem, não na nossa saúde, já imune, mas devido ao nacional-cinzentismo que se vive nas políticas de saúde e de lugares que se arrastam há décadas e décadas sem renovação.

"Entre les deux, mon coeur balance". O que se faz em Inglaterra? Da Conferência King"s College ao professor Peter Harper, recordo que o modelo de sistema de saúde português se inspirou no modelo inglês. Só copiamos para desvirtuar? E em França, com o professor David Khayat nas políticas de prevenção e redução de danos? O tabaco mata. A carta de Margaret Chan, ex-diretora-geral da Organização Mundial de Saúde, diz-nos que as políticas devem ser baseadas na evidência científica e proporcional ao risco. Alinhadas com o objetivo final de redução de danos (doenças), mortes prematuras e não apenas "the use of nicotine per se".

Existem dois ensaios clínicos e mais 10 estudos de coorte que indicam que os produtos alternativos - cigarros eletrónicos e tabaco aquecido - não têm as terríveis doses dos cigarros de combustão. Sentido de coerência? O Estado português autoriza a venda destes cigarros, altamente aditivos. Arrecada impostos e não desenvolve políticas de comunicação e de informação em saúde. Os cigarros têm as imagens assustadoras de vários cancros. Coloca-se a questão: quantos portugueses já deixaram de fumar cigarros, com imagens horríveis, em vez de mudarem para outros produtos, menos nocivos em saúde pública? Sejamos coerentes: o Estado é mau ou bom? E quanto às autoridades de saúde? Morrem sete milhões de pessoas no Mundo devido aos cigarros. E em Portugal, por ano, cerca de 12 mil com doenças relacionadas com esta enorme dependência. Pergunto: vamos deixar morrer mais quantos até iniciar estratégias de comunicação e de redução de danos?

* Professora convidada e investigadora em Comunicação em Saúde Pública

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