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Opinião

Um mundo em transformação

Um mundo em transformação

Vivemos num momento da história em que uma rápida transformação tecnológica tem vindo a provocar grandes alterações no mercado de trabalho, na distribuição da riqueza e construção social a que nos habituamos.

Mas, do ponto de vista histórico, esta situação nada tem de novo. As anteriores revoluções tecnológicas introduziram inovações que permitiram ganhos de produtividade, possibilitando produzir bens e serviços a um custo menor o que, por sua vez, conduziu a um aumento da procura e à criação de novos empregos.

A percentagem de desempregados hoje é semelhante à do século XVIII, apesar do crescimento drástico da população, da introdução da mulher no mundo laboral e da chegada de milhões de imigrantes ao Ocidente.

A história mostra que, a longo prazo, a tecnologia cria sempre mais empregos do que os que destrói. O problema está em que essa criação não acontece da noite para o dia.

Quando o motor a vapor foi introduzido em Inglaterra, por volta do ano 1800, assistimos a um período de 70 anos em que o padrão de vida não aumentou. Muitas pessoas foram deixadas para trás. No entanto, a partir de 1870 a vida começou a melhorar e em 1880 já era claramente melhor do que antes da era das fábricas.

Desde o final do século XX, a produtividade das economias da OCDE não parou de aumentar devido à digitalização. No entanto, os salários dos trabalhadores mal cresceram. Exatamente o mesmo que ocorreu durante a 1.ª Revolução Industrial.

A boa notícia é que, no final desta transformação, ainda haverá emprego para todos e, provavelmente, viveremos melhor do que agora. A má notícia é que essa transição também pode ser longa e dolorosa.

A situação está a ter consequências profundas na nossa sociedade, debilitando e reduzindo a classe média e fazendo aumentar as diferenças entre países e regiões. O resultado destas mudanças tem, num mundo globalizado, um impacto muito maior do que teve no século XIX, nomeadamente nas democracias ocidentais, com o crescimento do populismo e do nacionalismo.

A história diz-nos que essa não é a solução. Esperemos que os benefícios da digitalização cheguem a todos antes de termos que enfrentar uma nova catástrofe.

Presidente do Politécnico do Porto