Opinião

"(...) 2017 é muito simples!"

"(...) 2017 é muito simples!"

A frase completa foi: "À luz destes princípios, o caminho para 2017 é muito simples: não perder o que de bom houve em 2016 e corrigir o que falhou no ano passado".

Proferiu-a o presidente da República na sua mensagem de Ano Novo. Convenhamos que deve ter sido o único político do Mundo a ousar expressar uma esperança tão cristalina para um ano que, por todo o lado, será tudo menos simples.

Acontece que o seu sentido, ou a falta dele, se perde num texto que parece ter sido escrito com a única intenção de neutralizar os elogios vagos com críticas veladas de forma a que nem Governo nem Oposição se pudessem vangloriar de favoritismo.

Depois de a ler e reler ficaram a martelar-me os ouvidos três aspetos.

Em primeiro lugar, a nossa propagada propensão intercontinental. Somos mais de 10 milhões, estamos por todo o lado, "fazemos pontes e aproximamos povos". Ora como a nossa política de cooperação não é nem estratégica nem forte, nem sequer visível, seria interessante saber em que se baseia o presidente para fazer tal proclamação. O tema é muito importante, e muito importante seria contar com o avisado conselho do presidente para o explorar.

Em segundo lugar, a ideia de que quando queremos "somos os melhores dos melhores". Ora, o presidente sabe que isto não vai de querer. Ou não vai só de querer. Sermos os melhores dos melhores dá muito trabalho e demora muito tempo. É perigoso e demagógico usar a Web Summit ou o "Euro" de futebol para exemplificar esta supremacia milagreira. Os portugueses são tão bons como quaisquer outros se trabalharem para isso. Esta é a mensagem que permanentemente devemos repetir a nós próprios. E é muito importante que seja validada por quem coletivamente nos representa.

E, por último, mas não menos importante a ideia de que 2017 é que vai ser. Da navegação à vista, passamos para a navegação por instrumentos e da sobrevivência económica passaremos aos planos para o crescimento sustentado. O presidente sabe, como nós, que neste Mundo globalizado e incerto, decretar a estabilidade a prazo é letra-morta.

Ao contrário, o interessante é que fomos capazes de tirar partido de uma solução instável e que, de acordo com as Grandes Opções do Plano e do Orçamento que o PR promulgou, continuaremos a conviver com a possibilidade de melhoria incremental.

Percebo que Marcelo Rebelo de Sousa tenha querido falar para quem recebe e amplifica o seu discurso. Mas ainda há quem o ouça no original!

* ANALISTA FINANCEIRA

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