Opinião

Entranha-se. Estranha-se?

Entranha-se. Estranha-se?

Para ser a sério, deveria ser: primeiro estranha-se, depois entranha-se e depois pode estranhar-se outra vez - coisa que nunca acontece com a Coca Cola.

O slogan de Fernando Pessoa aplica-se como uma luva ao que aconteceu com a nossa atual solução governativa. Primeiro foi o diabo, mas agora já quase se esqueceu que António Costa não ganhou as eleições. Sobra um regurgitar político do presidente do PSD que, curiosamente, agora se estranha, mas talvez ainda se venha a entranhar.

Mas o que realmente importa é refletir sobre as condições que podem fazer com que a mistura gasosa se estranhe outra vez.

Continuo a achar que a manta que saiu dos acordos bilaterais é demasiado curta para agasalhar a base parlamentar de apoio ao Governo. O acordo na Concertação Social quanto ao salário mínimo, com cedências aos patrões noutros tempos consideradas inaceitáveis, é um exemplo do que dificilmente se pode manter sem contrapartidas de peso do lado do Partido Socialista. Ainda por cima depois do desajeitado desabafo de Augusto Santos Silva.

O problema é que contrapartidas de peso, especialmente na área laboral, são também um obstáculo de peso à obtenção de condições de financiamento favoráveis no mercado e, sobretudo, à tão necessária captação de investimento direto estrangeiro.

Basta analisar as apresentações que o Instituto de Gestão do Crédito Público faz para investidores estrangeiros e facilmente se perceberá qual a importância, nestas, de um retrato estável, e sobretudo pouco rígido.

Nestas condições, resta apelar à imaginação. A mensagem de Natal do primeiro-ministro foi, a esse propósito, exemplar. O que quis António Costa verdadeiramente dizer? Falou durante largos minutos da necessidade de uma boa educação para os mais jovens e de adequada função para os que já foram educados. E...?

Não vejo sinceramente que mais pode o PS fazer, que se veja, para manter com algum contrapeso o BE e o PCP firmes no seu propósito a médio prazo.

Sim, porque não será o PAN a salvar a geringonça, apesar da extraordinária lei da AR que, publicada em agosto e em vias de regulamentação, proíbe o abate de animais errantes e sem dono e obriga designadamente os municípios a encontrar meios financeiros para esterilizar, acolher e manter, milhares de animais.

É interessante, meritório e muito pouco exequível ou mesmo razoável. Mas é uma hipótese de contrapartida.

Mas convenhamos que se estranha e muito como imagem de uma "vitória de Abril"!

ANALISTA FINANCEIRA

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