Opinião

A Europa de Mio Cid

A história contava-se no "El País" deste domingo.

Rodrigo Dias de Bivar, Cid El Campeador, imortalizado na canção de gesta transcrita por Pedro Abád no século XIV, fixou uma certa Hispânia una e cristã que chegou a projetar-se numa das raras películas não espanholas a ser considerada, por direta intervenção de Franco, "de interesse nacional". À lá Hollywood com Charlton Heston e Sofia Loren.

Ora, conta o "El País" que o seu túmulo e estátua jacente, magníficos exemplares à vista de quem quiser visitar a extraordinária Catedral de Burgos, escondem afinal apenas uma parte dos seus ossos e mesmo essa fração será de origem duvidosa.

A outra parte do esqueleto, essa feita de ossos originais, está espalhada por toda a Europa.

Tendo morrido de morte natural aos 56 anos (raro em 1099), os restos mortais do herói andaram de Ceca para Meca entre Valência, Cardeña e Burgos.

Até que na Guerra da Independência o mausoléu foi profanado pelas tropas de Napoleão, por conta da fama que a peça de Corneille, El Cid, tinha granjeado em França, supondo-se que à fama corresponderiam fabulosos tesouros funerários.

Fémures, pedaços do crânio, metacarpos fizeram parte do saque.

Há restos de El Cid em França, na Alemanha, na Polónia, na Rússia e até no Gabinete de Curiosidades de Metternich na República Checa.

As autoridades Espanholas não resistiram ao desmanche e incorporaram o rádio do herói no Arco de Santa Maria em Burgos onde ainda se encontra.

Na catedral, onde se mostram, jazendo, as estátuas de Rodrigo e Jimena, sua mulher, pouco se sabe admitindo os estudiosos que não está tudo o que devia estar e nem tudo o que está deve fazer fé. Pelo menos, em relação a Jimena parece não haver grandes dúvidas. Já o dizia Frei Prudencio de Sandival "se muestra non solamente la sepultura, mas tambien los osos de esta señora, aunque son tan grandes que espantam, y parecem, mas de hombre que de mujer".

Extraordinária narrativa numa Espanha e numa Europa entre o jacente e o estilhaçado.

*Analista financeira